quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mais uma de aeroporto


Adoro escrever enquanto espero a chamada do vôo. Essa é a única hora que torço para que o vôo atrase. Acho que já entro em espírito viajante desde já e começo viajando pelos meus pensamentos. Em seguida, começo a viajar no ambiente, observando as pessoas e o cenário à minha volta e, claro, imaginando a vida das pessoas que, de alguma forma, me chamam a atenção.

Hoje escrevo do aeroporto de Goiânia. Uma vergonha!!! A começar pela estrutura que é mil vezes pior que a Rodoviária. Pequeno, feio, sujo, despreparado. O estacionamento não cabe os carros e quem acaba faturando são as empresas de aluguel de veículos em volta que oferecem vagas cobertas ou não, porém mais caras. Dentro, filas enormes, desordem no atendimento, na parede uma porção de televisores quebrados, os quais deviam servir para informar alguma coisa e, assim, ajudar a organizar.

Lembro-me do quanto era chique viajar de avião há muito pouco tempo atrás. Não sei se é porque eu era mais nova, mas existia todo um “glamour” que permeava as viagens de avião. As passagens eram bem mais caras, o que selecionava bastante o público, o qual viajava super arrumado. Era um disparate viajar de calça jeans e camiseta.

No avião, serviam lanches fartos, gostosos e quentinhos. A aeromoça era sempre linda, uma miss. Toda garota queria ser aeromoça, porque eram bonitas, arrumadas e super educadas.

O tempo foi passando e hoje, com a concorrência entre as companhias, a passagem está bem barata. O público já n ao é mais o mesmo. Em Goiânia então, é aquela morenada desarrumada ou então os arrumadinhos que insistem em usar o jeito e a forma de falar de um peão de fazenda.

O semblante das pessoas também mudou bastante. Antigamente, os rostos eram sempre iluminados, as pessoas sorrindo ou sentados com toda classe na sala de embarque. Agora, as pessoas têm cara de cansados, impacientes e nervosos com os atrasos constantes que são tão comuns. Alguns, mais conformados, ligam o som do celular, coloca os fones de ouvido e dormem, ou observam, cada qual no seu canto.

Outros, como eu, escolhem um lugar perto de tomada e abrem o notebook pra matar o tempo. Uns trabalham, outros escrevem desesperadamente como eu, outros acessam seus e-mails ou suas redes sociais. Enfim, algo é preciso fazer para esquecer o tempo de espera ou, pelo menos, fazê-lo passar mais depressa.

Nesse momento, estou no fundo da sala de embarque. Do meu lado esquerdo, um senhor de cabelos grisalhos trabalha em uma planilha. E está muito trabalhosa, porque ele mexe, mexe, mexe, pára um pouco pra pensar e escreve de novo. De repente, ele apaga tudo e recomeça. Que tipo de planilha será essa? Queria saber! Não estou fazendo nada mesmo, então ficamos imaginando o que ocorre na vida do outro. A planilha é bem simples: do Excel e tem uma linha cheia de escritinhos e na coluna da frente só números pequenos, de uma casa apenas. Acho que estou precisando usar óculos, porque estou a duas cadeiras dele e não consigo ler o que dizem aquelas várias linhas com letrinhas.

Do meu lado direito, tem um menino, um rapazinho de uns 23 anos, talvez. Ele me olha o tempo todo de rabo de olho. Deve também estar pensando que estou escrevendo algo muito útil ou que estou ocupadíssima com esse “projeto” que me faz escrever tanto. Daí ele abre uma planilha e me olha, depois abre o Orkut e me olha de novo. Agora que viu que olhei mais vezes pra ele, ele virou o notebook pro lado. Já percebeu que sou curiosa e quer me matar com a unha! Tudo bem. Mudemos o foco.

Na minha frente está passando um homem de uns 40 e poucos anos, muito bem arrumado, até bonito, mas que não tira o telefone celular da orelha desde a hora que entrei aqui. E ele já deve ter andando quilômetros, porque ele vai e vem, vai e vem. Encosta no café, continua falando e faz de novo o mesmo trajeto. Deve ser a amante. Se fosse a esposa, ele já tinha desligado. Chamou um vôo pra Guarulhos. Ele acelerou o passo de volta ao café. Deve ser o vôo dele ou então a pessoa do outro lado da linha passou alguma informação pra ele anotar. Está agora sentado na mesinha.

Nas cadeiras do outro lado, perto da porta tem uma senhorinha que me lembra minha tia avó que se chamava Edelvira, mas que eu chamava carinhosamente de tia Dêrva. Ela era bem velhinha, com a pele bem enrugadinha e tossia muito por conta dos inúmeros cigarros que fumou durante toda a vida. Só que essa velhinha na minha frente é espevitada e parece ser nova essa experiência de andar de avião. Tem uma neta morena com ela, de uns 20 anos, mais ou menos. É ela que cuida da avó: pega café, água, acompanha até a cadeira onde vai colocá-la sentada. A cada chamada de vôo a velhinha se levanta e diz bem alto “Agora é esse!”. A neta responde carinhosamente “Ainda não, vó!” e sorri para todos nós que estamos olhando, por conta da altura da voz e do jeito espevitado da velhinha.

E os telefones? Não param de tocar. Quando um toca, um monte de gente averigua bolsas e bolsos pra saber se não é o seu. Até o orelhão tocou a pouco. Aí, levantou-se um rapaz do outro lado da sala e atendeu. Será que era pra ele!? Pra mim, eu sei que não era.

Agora não tenho mais nada a dizer. Ainda vou aproveitar o tempo pra ler alguns e-mails, entrar nas minhas redes sociais e continuar observando. A conexão sem fio da Vex é lenta, mas pode ser que surja algum novo tema a se escrever.

Pois é! Esse é o cenário do nosso aeroporto. Pessoas feias e mal arrumadas que vão e que vêem, sem a correria dos aeroportos paulistas, nem o jeito despojado do aeroporto do Rio de Janeiro. Mas todos com um destino certo.

3 comentários:

  1. Taiza,

    Parabens pelo ótimo texto sobre o nosso vergonhoso Aeroporto Santa Genoveva.

    Concordo plenamente que hoje em dia que sair de viagem do GYN é um grande incômodo.

    O novo governador de Goiás disse que vai retomar as obras da construção do novo terminal ainda esse ano. Eu DUVIDO muito!

    Todos os Goianos já estão de "sacos cheios" dessa situação. Virou motivo de piada para todos que viajam pelo Santa Genoveva.

    A paciência acabou! Vamos ver se os politicos acordam logo!

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  2. TAÍZA, VOCÊ OBSERVA TUDO EM AMIGA... QUE FACILIDADE DE OBSERVAR E AINDA ESCREVER DE FORMA TÃO VERDADEIRA É COMO SE ESTIVESSE VIVENDO ISSO COM VOCÊ, ADOREI! CÁ ENTRE NÓS PRA ONDE TÁ INDO AGORA AMIGA? KKKKK, BEIJOS

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  3. Concordo plenamente com a Giuliana! Sua escrita é fantástica! Não te conheço, mas todos os dias leio o seu blog e vivo as suas histórias, como seu eu fizesse parte delas...Vc deveria escrever um livro, certamente, colocaria muita gente no chinelo!Parabéns!

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