segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Uma homenagem a Arnoud Rodrigues


“Existimos, a que será que se destina?”...

Assim fala Caetano e me espelho nessa “dúvida” para tentar entender tal destino e escrever expressando alguma coisa que aprendi com meu amigo que se foi. Não escrevo de forma profissional, pois nem amador eu sou nessa arte, mas escrevo com saudade e na tentativa de entender o “destino da vida”, essa matéria fina, frágil, invisível aos olhos e que conduz almas, sentimentos e emoções a um corpo físico, mas também frágil, tão frágil quanto a chama de uma vela acesa que ao menor sopro de um “Vento Destino”, se apaga...

Nesse dia acordei me preparando pra despedir da matéria, pois nem isso a vida nos permite, ela se vai em silêncio e na solidão que lhe cabe e que lhe é permitida... Iria me despedir da amizade e do talento, principalmente do talento...

As notícias do meu País falavam de um carnaval por todos os cantos e no meio da folia ouvia-se baixinho a notícia também, das cinzas de uma quarta-feira triste e sem mais um canto, sem mais um talento, sem o riso, sem alegria e sem Arnaud Rodrigues...

Arnaud partia, a folia insistia... Morre o talento e sobrevive a mediocridade que insiste em se chamar arte. Partia parte da arte e ficava toda uma hipocrisia alienadora e vulgar...

O menino da terra de Virgulino Ferreira, guerreiro dos sertões nordestinos, que “Talhava Serras”, Robin Hood da caatinga que não com arcos e flechas, mas cordas e poemas usava a indiferença e crueldade dos ricos e as transformava em esperança, sorriso e lenitivo aos pobres...

De repente, esse nosso herói do coração e do amor virava só lembrança e saudade...

Acolhido e adormecido pelas águas que o encantaram, uma perigosa Iara sedutora, essa sereia cabocla do cerrado, o mesmo canto das águas que havia fascinado seu coração e que um dia o trouxera para uma terra distante da sua, mas que ele aprenderia a amar numa espécie de adoção inversa... Arnaud adotava uma nova terra como sua mãe, não imposta por tal destino, mas escolhida por seu coração...

Mas essa mesma água fora escolhida por tal destino para lhe servir de último leito, último abrigo, desatando os laços da matéria e soltando a vida ao vento que de frágil se apagava, que por ser de terra lhe sufocava...

Pra onde vai tanto talento?

Que fim tem essa vida criativa, perspicaz, rebelde e divertida?

Que acontece com tanta experiência de vida, tanto amor semeado, tanta luta e tanta Arte latente?

Será “vontade de Deus?”...

Alguém me disse que “Deus queria a alegria dele”...

Não creio!...

Meu Deus não se portaria assim de forma egoísta e de natureza tão imperfeita e desumana nos permitindo receber e amar alguém e depois, como um grande sádico numa brincadeira de mau gosto, o levasse para seu deleite pessoal não se importando com mais nada nem ninguém...

Pra não morrer também de desencanto ou para me livrar das tristes amarras da loucura, prefiro acreditar na vida enquanto ela “é vida” e não quando vira “outra coisa qualquer”. Não quero viver esperando a morte ou o que vem depois e não mais pensar ou esperar que a vida vire saudade ou uma eternidade duvidosa e improvável...

Depois de tantos Arnauds, Gonzaguinhas, Vinícius, Josés Americos e Gomes, quero acreditar no momento que vivemos como o último e na energia e no amor que semeamos como inspiração e qualidade para essa vida...e a falta dessa semeadura nas tristezas adquiridas. Quero abraçar mais os Arnauds antes que eles partam não sei pra onde, quero brincar mais com as crianças, cuidar mais de animais e plantas, me doar inteiro a todas as paixões e cantar, sorrir, abraçar, beijar e, principalmente, amar mais e mais e tudo e a todos sem distinção, bastando ter “vida” como única e exclusiva condição para eu poder amar. Depois de Arnaud, quero amar mais a vida e tudo que ela representa...

Arnaud fica na saudade da alegria de seu canto, de seu riso de seus poemas, na “fome do urubu”, no “piar do cavaquinho e da flautinha”, na vingança do menino da porteira, nas canções de amor a Palmas e ao Tocantins e nas amizades sinceras espalhadas por aqui...

Ele não vai triste nem sozinho, vai cheio de “Folias de Reis e de Rainhas, em nome das estrelas e mar marejando”, aprendendo e ensinando a lição de que “o mar bravo só respeita rei”...

E partindo, partindo, mas voltando nesses versos para confirmar tal lei, a lei da alegria e do amor, mas “Alegria em nome de Cristo, porque Cristo foi o Rei dos Reis”...

Amigo Arnaud, não sei pra onde você vai, mas seja lá onde for, sua arte irá na frente lhe abrindo portas...

(Texto de Diomar Naves - arquiteto, apresentador de televisão, produtor, cantor e compositor)

Um comentário:

  1. Que texto lindo Diomar! Quanto sentimento! Quanta sensibilidade nessa hora tão difícil!Parabêns pelo texto que nós faz refletir junto com vc sobre os valores da vida.
    Meus sentimentos pela grande perda.
    Aline Fischer.

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