segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Minha orquestra


Há alguns dias estou sem escrever, pois estou numa ausência de palavras minhas, coisas que não sei transcrever aos meus fiéis leitores. Então saio navegando para não decepcioná-los, procurando a esmo textos de outros escritores que sejam parecidos com esse meu momento, um momento de pausa. Algum texto que possa traduzir um pouco do que sinto, do que penso, do que quero. Mas nem assim consigo chegar enfim à conclusão do que realmente quero.

Apesar de a pausa representar um intervalo de silêncio em uma música, em mim há uma orquestra que toca incessantemente uma sinfonia que, de tão harmônica, me causa uma enorme confusão mental. Uma orquestra regida por dois maestros que não se entendem nunca: a razão e a emoção. Ainda assim, a música erudita é perfeita, com todas as suas evoluções, dessas que faz o coração bater mais forte.

Essa pausa, a qual não sei qual será o seu tempo, muito menos qual a nota a ser tocada depois, me incomoda absurdamente, porque me foge o controle da minha própria vida. É como se alguém tivesse apagado parte da partitura que eu já li e eu mesma toquei, porém, por algum motivo, me esqueci. Essa pausa tira toda a melodia do que já vivi até aqui e é seca, forte, contundente, me transmitindo ausência de notas e sons tão necessários ao bem viver, que me dá a breve sensação de ter o seu final exatamente aqui. Um final interrompido, sem graça, sem ritmo.

Nesse devaneio musical tudo que há é ausência. Ausência das notas musicais, dos bemóis, dos sustenidos, das palavras que tanto gostaria de escrever ou dizer harmonizando essa música e formando alguma letra. Ausência de alguém pra entender, pra sentir ou compartilhar esse som, assim como uma falta de amor em minha vida, ausência de pessoas que eu possa verdadeiramente amar.

Em todos os lados ouço músicas carnavalescas, acompanhadas de multidões ensandecidas com suas roupas coloridas, rumor de tambores e instrumento de percussão... em mim, apenas pausa... sem som, muito menos tom, quem sabe branca (ou seria preta?)... sem graça e sem sentido.

De repente, cessa-se a pausa e a melodia a seguir é doce, bem elaborada. Começa com o Sol numa flauta que mais parece encantada. A evolução é tão perfeita, tão linda que parece triste e dói na alma e uma lágrima escorre em meu rosto.

Pouco a pouco, os arranjos vão ficando mais ricos, mais instrumentos compõem a melodia e o que era triste começa a ficar rico, mais completo. Os maestros começam a fazer um tipo de repentismo divertido que alegra não só a platéia como todos os componentes da orquestra. Era o ideal que todos esperavam.

Nessa sinfonia vou levando a vida, assistindo a tudo com muita calma e cuidado, sentindo cada acorde com muito sentimento, acompanhando cada nota musical, cada pausa, cada evolução, esperando o momento certo dos aplausos ecoarem fortes pelo salão, na certeza que foi um verdadeiro espetáculo.

Um comentário:

  1. Olá Taiza Renata (que nome bonito!), parabéns! Precisa talento para escrever tão bem sobre o "não escrever". E ainda mais assim, de modo tão musical, harmônico, melódico!
    No dia que você estiver inspirada me avisa que venho correndo. rsrsrsrs! Beijo grande.

    ResponderExcluir