segunda-feira, 13 de junho de 2011

Era uma vez um piano...



Era aquele grande, de cauda, muito imponente, daqueles que escolhemos o melhor lugar da sala de visitas da nossa casa para colocá-lo. A cor era branca e vivia sempre limpo, impecável. Era um instrumento que soava muita harmonia e quem tinha o prazer de ver ou participar de suas apresentações, sentia um bem estar inigualável.

Era completo. Todas as notas estavam presentes: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si, juntamente com os bemóis e sibemóis, sustenidos… se afinando lindamente, fossem elas tocas em claves de sol ou de fá. Algumas tocavam juntas, outras separadas, outras eram dedilhadas, mas a presença de cada uma delas era de suma importância para a perfeição da melodia. E que acordes maravilhosos… Arrepiavam a alma por sentirmos ali tanta cumplicidade e união. Havia unidade!

As melodias entendiam e até agradeciam quando era preciso a ajuda dos pedais, ora abafando o som, ora misturando, ora abaixando as notas. Era isso que fazia a grande diferença para que a música fosse especial. 

Assim era a vida desse piano: todos unidos, sempre juntos, conectados e, por mais que houvesse uma distância entre as notas, por mais que uma ou outra desafinasse, havia a certeza que outra nota entraria para cobrir o seu erro ou a sua deficiência. Sabia-se também que a pausa era necessária para que o tempo da música fosse harmônico. O respeito e a amizade eram os afinadores essenciais de cada corda.

De repente, as coisas começaram a mudar. E mudaram muito! Aquele piano lindo, branco, começou a se empoeirar, ficando encardido. Parecia branco, mas não era. Por mais que passassem o pano, ele continuava embaçado. Havia perdido o brilho.

Algumas notas começaram a desafinar, outras não respeitaram o tempo da música, outras tentaram se juntar com outras para dissipar o som que outra nota tocava. A poeira da mentira, da armação, da conversinha de comadres começou a impregnar em algumas cordas do piano, tornando um som diferente, feio.

A chuva de mentiras, de invenções, de manipulações foi mofando o piano por dentro. Por fora, até parecia estar tudo igual, mas as notas mais sensíveis percebiam bem essa diferença. Houve nota até que preferiu emudecer, deixar de tocar para não compactuar com toda aquela sujeira.

O que aconteceu com esse pobre piano é que ele nunca mais tocou uma música que fosse verdadeira, que cantasse o amor e a amizade. A sensação é que ele estava sendo usado para um único ritmo musical: o rock pauleira. Não se ouvia mais valsas, boleros, clássicas, bules… nada! No máximo, um hip hop. Claro que eu respeito, afinal, cada um toca a música que quer para sua vida e faz em cima delas suas construções, mas me pergunto o porquê as pessoas preferem o imundo ao belo.

E eu, que tive tanto orgulho de fazer parte desse piano um dia, que fui nota tantas vezes tocada com maestria, abrindo meu coração para oferecer a maior pureza de alma que houvesse para compor aquelas melodias tão lindas, senti a mudança de minhas notas amigas, o afastamento delas, os erros de compasso, as pausas fora de hora, o desafinar que dói nos ouvidos. 

De repente, aquele piano que era perito em escalas e sonatas, já não tocava mais nada, nem o metrônomo poderia mais ajudar para sair uma canção dali, nem que fosse das mais simples. Melhor dizendo, tocava sim. As notas ainda faziam de conta que estava tudo normal, mas quem ouvia, tinha nitidamente a certeza do desastre musical que dali soava.

Voltando à minha nota, preferi então não mais tocar naquele piano. Não sei fazer de conta. E se for pra desafinar, que eu fique pausada eternamente. Só voltaria a tocar se fosse pra sair uma bela canção. Ainda sou amiga de todas as notas. Sou sim, verdadeiramente. Mas com algumas notas a recíproca deixou de ser verdadeira.

Sinto o amor e amizade há tanto dedicado, se transformar em falsidade. E dessa partitura eu me recuso a fazer parte. A minha música continua sendo o amor e a amizade, mas em verdade. Prefiro desamarrar as minhas cordinhas e buscar outro piano, ou mesmo outro instrumento. Pode ser uma mísera caixinha de fósforo. Dali também é possível sair som com harmonia. Mas será um som coeso, verdadeiro, mais simples, como eu gosto de ser e estar.

Vou sentir muita saudade de todas as canções, de todos os momentos em que éramos admirados pela sintonia dos corações. Tenho esperança de que as notas tenham um mínimo de nobreza de alma e, juntas, cara a cara, lado a lado, possam conversar a respeito de todos os elementos que causaram tanto desafino e, com coragem e verdade, se unam novamente e voltem a tocar lindas melodias. Tenho certeza que é isso é perfeitamente possível. Basta que cada uma das notas tenham força para admitir quem realmente é. 

Na melodia da vida, vou seguindo tocando, cantando onde eu encontre afinação. E se, nesse caminho, pudermos novamente nos unir para o bem, com toda certeza eu estarei lá, com o maior prazer.

2 comentários:

  1. so gostei da foto do piano o resto e uma merda

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  2. Há pessoas que não sabem apreciar uma bela poesia, que por não entenderem desprezam... mas acho que ficou lindo!

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