quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Muito fácil



Muito fácil proferir um lindo discurso sobre fé e confiança na vida, difícil é entregar ao Poder Superior seus passos e colocar ação nas tuas palavras. Quando se é contrariado, quando se vive uma frustração, no lugar da esperança, colocamos um profundo ressentimento e cumprimos com maestria o papel de vítima dos acontecimentos. 
Muito fácil arranjar um réu que nos tire a responsabilidade do crescimento. 
Muito fácil amparar um amigo dizendo que a cura está no tempo, difícil é acreditar que o tempo vai passar e que haverá cura nele quando a dor está em nós. 
Fácil demais insistir naquilo que já pressentimos ou até temos certeza de que não nos serve mais, difícil é se comprometer com o seu amor-próprio e se livrar do peso que é tentar mudar quem não deseja mudança alguma. 
Sempre teremos uma justificativa, um bom motivo ou um argumento irrefutável para prolongar a nossa infelicidade. Admitir que não temos as coisas sob controle é doloroso e quase inaceitável. Usamos a manipulação para tudo. E este movimento é sempre muito sutil, às vezes, até inconsciente. 
Mas é preciso estar preparado. A vida não nos avisa com antecedência se os próximos instantes serão de alegria ou sofrimento, mesmo quando achamos que estamos fazendo tudo certo.
Mas quando há a entrega, quando há uma certa evolução espiritual, uma confiança de que tudo é instrumento para o nosso melhoramento, as adversidades não se tornam menos desconfortáveis, mas a consciência de que esta também é passageira, nos faz focar numa solução, não chafurdar no problema... 
Quando tive que colocar ação nas minhas palavras, descobri que a nossa crença deve ser renovada diariamente e que não vivemos apenas do acaso. 
Mesmo que você tenha encontrado seu grande amor na esquina de uma rua qualquer, foi preciso que você andasse até lá, mesmo que você tenha conseguido o emprego que almejou, foi preciso que alguém te indicasse ou que estudasse o suficiente para tê-Luiz Otávio 
Mesmo que você tenha perdido um ente muito querido e não consiga ver possibilidade de restauração desta perda, existem outras pessoas nascendo no mundo e que vão cumprir sua missão nesta existência dentro do tempo concedido a cada um. 
Eu nunca vi lamentações resolverem problemas, nunca vi relações baseadas na carência pura darem certo ou desempregados conseguirem emprego desaguando suas desgraças numa entrevista. 
Estou escrevendo isto tudo porque preciso me lembrar de continuar sendo grata, humilde, ousada e corajosa.. E pra todas as coisas temos que usar a honestidade. 
Por isso eu vim aqui, agora pra me lembrar dessa gratidão, porque foi ela que me deu tudo de mais precioso que tenho. 
Porque ser grato é ser também merecedor. 

Marla de Queiroz

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Seja a mulher da sua vida


Seja inconsequente e pague por isso. Fique bêbada e pague a conta. Abra a porta do carro, banque uma rodada de chope e, quando o dia não for de festa, simplesmente diga não. Diga não sem culpa, mas não sem educação. Seja breve na fala e detalhista no pensamento. Aperte firme a mão das pessoas. Sorria. Seja a frente de batalha da sua vida, sem colete à prova de balas. A vida, minha amiga, não é à prova de imprevistos.
E seja agora! Mas, não, não seja para os outros… nem por eles. Seja sua e por você. Vá na frente, dê o primeiro passo, mude de vida sem pedir a opinião dos outros, sem pedir a permissão do mundo. Descubra-se. Entenda-se. Faça terapia e, quando não der, faça compras. Seja inconsequente e pague por isso. Não tenha filhos e, se tiver, permita-se ser a mãe que a natureza te formou para ser. Escolha. Viaje. Decida. E, quando ficar em dúvida, simplesmente admita. Venda seu carro, compre uma Komb. Ou, então, financie seu carro zero. Mude. De quarto, de casa, de roupa, de sonhos. Solte as mãos, abra os braços, corte o cordão que te prende ao passado. Não espere, vá. Leia, escreva, escute. Pare de assistir a novelas. Discuta, dispute, desculpe. Seja íntima de si mesma.
Seja a mulher da sua vida. Seja só sua. E não o faça de fachada, não tente impressionar. Impressione-se com a vida. Observe uma borboleta, alimente um gato, acaricie um cachorro. Permita-se ser sensível. Chore. Ser a mulher da sua vida não é ser mais homem, ser a mulher da sua vida é olhar-se no espelho e sentir orgulho do seu próprio sorriso. É respeitar suas próprias decisões em detrimento da opinião dos outros, mesmo que esses outros sejam a sua família. 
Ser a mulher da sua vida não é ser durona. Faça ioga ou boxe, mas faça o que você gosta. Descubra-se de novo. Perceba o que mudou. Você muda, o mundo muda; mas você muda, não muda nada. Corte os cabelos, nasça de novo. Ajude desconhecidos e aproveite milimetricamente o doce sabor de fazer a diferença na vida de alguém. Mas, antes disso, faça a diferença na sua vida!
Dirija o carro, pague o almoço, ponha “amor próprio” na mesa. Ame-se. Ame-se muito. Ame-se acima de tudo. E depois de se amar tanto, ame-se mais um pouco. Ame-se sem maquiagem e sem estar em forma, porque do que adianta os elogios de outra pessoa se você mesma não enxerga sua beleza? Enxergue-se. Vista-se de coragem. Convença-se do quão foda você é e, se você não conseguir ser sua própria advogada, é porque ainda não entendeu o que é, verdadeira e intensamente, ser a mulher da sua vida.
Honre-se. Você não nasceu mulher à toa. Você não lutou até agora para se esconder atrás de seus próprios preconceitos. Seja a mulher da sua vida. Seja e pronto. E ponto.
E conto… te conto este segredo, que ao compreender este texto você encontrou o seu só seu (re)começo.

Letícia Flores Montalvão

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Hoje eu não quero...


Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.
Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.
Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência. 
Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.
Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.
Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.
Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e ninguém levou a sério.
Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.
Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.
E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.


Ana Jácomo

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Já analisou suas postagens?


"Você é o que você posta!" - Já ouvi isso várias vezes e percebo com nitidez que essa pode ser uma verdade para muitos. Muitos me agradecem com frequência por ler minhas postagens e se sentirem mais estimulados na vida ou quebrar um sentimento de tristeza com as baboseiras que posto nas minhas redes. "Nossa, Taiza! Essa foi pra mim. Certeza!"
É inegável que o mundo virtual faz parte das nossas vidas. Alguns com mais intensidade, outras com menos, todos estamos de alguma informa conectados uns aos outros. Mesmo que você não seja um tipo de pessoa que fique postando muito, você tem redes sociais e, por ela, vai navegando e sabendo da vida das outras pessoas. Vai construindo dentro de você uma imagem em relação ao outro. É o suficiente para já fazer parte deste mundo.
O tipo de postagens que você faz, por mais que seja um texto que não seja de sua autoria, se está na sua página, é porque você se identifica com ele. Você pode não viver na igreja, mas se vive postando orações, vídeos de padres ou pastores, imagens de santos ou afins, mostra ali o seu lado religioso, afinal, uma ateu jamais postaria esse tipo de coisa. Alguns postam coisas tristes, pessoas com deficiências, desastres... isso também vai dizer um pouco da energia que ronda você.
Eu insisto em postar otimismo, beleza, reflexões, fotos de momentos felizes e lugares agradáveis, o que leva as pessoas a pensarem que sou uma pessoa que vive nos picos mais altos da alegria. Claro que isso é um engano, pois como saudável ser humano que sou, tenho momentos de tristeza, raiva, me deparo com situações desagradáveis, vou a lugares feios e tenho contato com muitas coisas desagradáveis diariamente. Porém escolho oferecer ao mundo o meu lado bom, o que faço questão de alimentar. E nos dias que não estou muito bem, já tenho algumas cartas na manga para deixar uma vibração diferente nas minhas páginas ou simplesmente silencio. 
Nunca me esqueço de uma certa vez que postei no Facebook: "Hoje estou meio assim..." Pronto! Em pouquíssimo espaço de tempo e por dias seguidos as pessoas comentavam: "O que aconteceu?", "Isso não combina com você!", "Você não é assim!" As mensagens não paravam, não só pelo Facebook, quanto pelo WhatsApp e por telefone. Pessoas queriam marcar um café para me animar e um singelo "sentir-se assim", que nem eu mesma soube descrever, causou um reboliço de imagens a meu respeito naquele momento. E quem me tirou desse estado estranho foi um amigo que me disse: "Amor, sabe o que você faz? Pega seu Facebook dos últimos três dias que você vai melhorar!" Eu ri demais disso, mas ouvi o conselho. Sabe que funcionou? Talvez porque eu realmente acredite no que eu posto ou por ter me desconcentrado do meu estado indescritível.
É bom quando nos damos conta do poder que isso tem diante das pessoas. Com nossas redes sociais fazemos o que queremos, interagimos com quem gostamos, bloqueamos quem incomoda e, percebendo esse movimento, podemos brincar com as pessoas que estão conectadas conosco. Brincar no melhor sentido, claro. Poder deixá-los imaginar algo sobre você, poder mudar o estado da pessoa naquele dia, poder divertir aqueles que estão tão longe, mas igualmente amados por nós.
Porém, é bom sempre lembrar que o melhor da vida acontece offline. Então, "de quando em sempre", desconecte-se e aproveite o mundo real. Este, sem a menor sombra de dúvidas, ainda é o mais divertido.

Um dia por vez - 11/08/16 - Punição



Sexta-feira sugere diversão, alegria, descontração e uma porção de sentimentos bons que nos acompanham em momentos felizes de encontro com amigos ou familiares, ou ainda um momento nosso de colocar o pé no freio e descansar de uma semana que pode ter sido árdua.
Meu caçula passou a semana planejando encontro com um amigo de escola para hoje na minha casa. O coleguinha sempre me pareceu uma criança ativa, esperta, prestativa, carinhosa, comunicativa... uma graça de menino! Todos os dias, ao chegar na escola para buscar meu filho, logo ele vem: "Tia, o Pedro Henrique está em tal lugar!", "Tia, tudo bem? Eu vou procurá-lo pra senhora!", "Tia, hoje eu não sei onde o Pedro Henrique está!". 
Nas vezes que nos encontramos essa semana era assim: "Tia, a senhora sabia que vou pra sua casa na sexta?", "Tia, eu já falei com a minha mãe e ela deixou". A ansiedade de ambos era grande por esse momento. Num desses dias, eu falei com a irmã dele, a qual me contou que ele estava autorizado a ir e que a mãe achou até bom, pois está com um bebê recém-nascido em casa. 
Ontem, ao chegar na escola, foi tristemente diferente:
- Oi, tia! Eu não vou mais para a sua casa, viu?
- Ué? Está tudo combinadinho! O que aconteceu?
- É que eu dei uma vassourada no meu padrasto e minha mãe me colocou de castigo.
Eu, assustada, pois ele nunca tinha me demonstrado esse lado agressivo, ainda soltei uma risadinha tentando disfarçar:
- Como assim? 
- É! Eu dei uma vassourada no meu padrasto. Daí minha mãe brigou comigo e agora eu não posso mais ir. Eu não posso fazer mais nada essa semana.
Mais confusa ainda com essa situação, no impulso de ter uma conversa educativa com ele, aproveitando essa brecha, perguntei:
- Mas que coisa chata, heim? Por que você fez isso?
- Porque ele estava batendo na minha mãe e eu bati nele com a vassoura e ele desmaiou.
Respiração parada. Coração trincado. Sentimento de injustiça e compaixão me inundaram. Só respondi:
- Tudo bem, meu querido. Na semana que vem a gente combina de novo, tá? Fica tranquilo. 
Em milésimos de segundos me veio na cabeça todo o cenário: uma mãe de três filhos, sendo um recém-nascido, apanhando do parceiro e o outro filho, na ânsia de defender a mãe, violenta o padrasto e é colocado em xeque. De caçador, virou a caça. Quem nessa história merece punição?
Eu sei que não devemos julgar nada nem ninguém, mas situações como esta me colocam em contato com o meu papel de mãe na vida dos meus filhos. Fiquei tentando imaginar o que levou essa mãe a agir com o menino desta maneira. E pior: o que a leva a continuar com um homem assim, a ponto de punir um filho que tentou defendê-la de uma situação caótica. 
Será que foi o primeiro ocorrido ou será um acontecimento recorrente dentro daquele lar? Será que essas crianças vivem em situação de risco? O que fazer por esse menino valente com cara de anjo e alma leve? Denuncio? Como? Não estava presente, não vi, não ouvi, não conheço a família... apenas tenho o relato triste de uma criança que me conta com uma carinha inocente, como se tivesse comido escondido a torta que estava na geladeira há muito tempo.
Até que me coloquei no meu lugar, entendi que essa é a história dele. Cada um está no lugar que precisa estar, no melhor lugar nesse momento. Só peço a Deus que o mantenha um ser saudável diante da realidade que o circunda e que essas experiências o levem a ser um homem de bem, mantendo seu jeito alegre de ser.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Filhos em revoada


A vida vai se construindo em cima de sonhos. Sonhos que temos, que planejamos, que realizamos, outros que deixamos se esvair pelo caminho, mas que nos deram algum movimento e, de certa forma, nos preparam para a concretude de um novo sonho, muitas vezes maior e mais concreto dentro de nós.
Meu maior sonho de vida era ser Mãe. Desde criança sempre gostei e cuidava muito de crianças. Ganhava o meu tempo inventando histórias e fazendo coisas que pudessem encantar o mundo infantil. E ver seus olhinhos brilhando de alegria enchia minha alma de satisfação e felicidade.
Quando, finalmente, tive os meus eu não acreditava naquela perfeição da Criação, a forma como se desenvolviam, a maneira como dependiam de mim e os passos que iam dando rumo à concretização de seus desejos. Criar filhos é o trabalho mais árduo que já conheci na vida, tanto quanto é mágico e divino. De tudo que já fiz na vida, de todas as situações que já passei, ter filhos e criá-los foi o que mais me moldou, o que mais aprendi e o que mais me realizei até hoje.
Dentro do que pude dar, meus filhos tiveram tudo de mim (e tem até hoje!). Seguindo o fluxo da vida vão crescendo, se tornando homens, traçando seus caminhos, cada qual a sua maneira, cada qual com suas peculiaridades da personalidade. E há quem diga que perfeição não existe! Existe sim, basta você abrir os olhos do coração e enxergar o quanto a vida é sábia e bela. Meus filhos não são perfeitos, mas a vida é e isto basta.
Às vezes, paro e fico olhando, observando, analisando... fazendo uma retrospectiva, lembrando de fatos que marcaram nossas vidas e chego à certeza de que tudo valeu. Se tivesse que voltar no tempo, faria tudo de novo, como tem sido feito. Talvez eu ouvisse menos as pessoas e desse mais atenção ao que diz meu coração.
Meus meninos estão crescendo e agora é hora deles sonharem os próprios sonhos, de buscarem para suas vidas realizar as escolhas da alma e voar. Cada qual no seu caminho, os meus adolescentes começam a me abordar sobre o que penso, procurando o porto seguro que uma palavra de mãe pode dar. E é só o que eles querem: confirmação. É como se dissessem: "mamãe, aceite minhas escolhas e eu serei mais feliz!" E eu os apoio. Oriento, sempre explicando que minhas contribuições são apenas pontos de vista meus e que eles analisem tudo com muito cuidado, porque eu não sou dona da razão.
E por mais que meu movimento seja sempre de amorosidade e acolhida, não tem como negar que esse momento, entro em contato com uma saudade que ainda nem chegou e meu coração fica pequenininho, já pronunciando a falta daquele filho perto de mim. Puro apego! Ele vai ter que passar. Essa é a hora de aceitar que esse lugar de mãe tem uma essência, uma função, um significado muito maior do que isso que nos salta aos olhos.
Tudo que me resta é apoitar num lugar não tão longe que não eu possa vê-los, mas também não tão perto a ponto de sufocá-los. Nesse lugar, só resta acreditar na sabedoria divina da vida e pedir a Deus que nos guarde e nos guie por caminhos vindouros, por onde quer que nos atrevamos a ir.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O ato de pedir perdão


O que tenho pra discorrer hoje é um assunto muito comum e está na moda. Pessoas perdidas se refugiam dentro de igrejas sem coragem de enfrentar causas próprias e aprendem lá normas e convenções sociais, tentando alcançar assim algum tipo de santidade ou limpeza espiritual através da liberação do perdão. Cada vez mais leio sobre isso, vejo situações retratadas no dia a dia e fico sabendo de histórias parecidas que acontecem insistentemente por aí.
Atrevo-me então a dizer que pedir perdão nunca foi um ato cristão, ao contrário, é o ato mais egoísta e hipócrita que conheço.
Chegar nesse ponto de posicionamento, implicou passar pela experiência diversas vezes com pessoas diferentes, algumas vezes partindo de mim e também de outras pessoas se reportando a mim. E não é que aconteceu comigo de novo no último domingo?
A todo momento pastores, padres e reuniões das mais diversas religiões ou seitas impõem a necessidade de perdoar o outro, como um ato sublime de um ser humano de um entendimento maior e alma nobre. Isso dá um status maravilhoso, de gente do bem, de coração bom. Parece algo que você vai fazer para o outro, na intenção de que ele fique bem.
Porém, quando a pessoa pede perdão, ela está apenas liberando de si mesma uma culpa que ela carrega em relação a um fato ou alguém. Ela está, nesse momento, favorecendo a si mesma apenas. O outro? “Ah, esse que se dane! Eu fiz a minha parte. Cada um com seus problemas, não é mesmo?” Então, me vem o questionamento: a quem devemos perdoar de fato? Como perdoar verdadeiramente?
O perdão deveria ser advindo do coração, mas é um processo mental que tenta eliminar algum ressentimento, raiva ou rancor próprios. Sabe aquela história “ódio é aquilo que você bebe achando que vai matar o outro”? É exatamente isso, a pessoa está bebendo do próprio veneno, até que não consegue conviver com aquilo e resolve pedir perdão. Quando, na verdade, a pessoa que pede perdão deveria ter ali o sentido de se redimir diante do mal que causou, pelo outro e não por uma causa que é inteiramente sua. Até porque pode acontecer que para o outro, o ocorrido que tanto incomodou você, não tenha para o outro o menor peso ou valor.
Acredito que se o ato de pedir perdão viesse do coração, o comportamento seria completamente diferente. A começar, isso não precisaria ser ensinado em sinagogas, viria de dentro de cada um, da necessidade intrínseca de respeito e amor que se deve ter pelo outro. A pessoa deveria sentir no âmago do seu ser um incômodo por ter prejudicado outra pessoa e mudar sua atitude diante daquela pessoa e também a postura diante da vida.
Não há nada mais fácil que pedir perdão e, logo em seguida, fazer de novo ou parecido com a situação anterior e com a mesma pessoa. Acho essa posição até muito confortável! Por isso, o sentido de hipocrisia. A pessoa que tem essa conduta costumeira, com toda certeza (pode averiguar!), pede o perdão e sai contando pra mundos e fundos o seu belo ato de bondade, o que já deixa evidente sua intenção recheada de vaidade.
Pedir perdão deveria ser um ato de amor independente de, de amor incondicional. Aquele insight que você tem na vida e que te transforma, transforma o outro e vai mudando também o mundo à sua volta, sem necessidade de palavras, mas com obrigatoriedade de uma postura diferente que venha recheada de verdade.
Pensando sobre tudo isso, principalmente no que aconteceu no último domingo, sabendo exatamente o objetivo por trás do pedido de perdão que recebi, venho pedir-lhes que, se algo existe a ser perdoado entre nós, eu e você (sim, você, meu leitor desse momento), não venha falar comigo e me pedir perdão. Se quiser fazer em sinônimo de um desabafo, será aceito de coração aberto e muita acolhida. Porém, procure analisar os fatos, perdoe-se por ser quem você é, mude sua atitude comigo e diante da vida e mostre que, realmente aquilo não foi legal assumindo nova postura sendo firme e verdadeiro.

E se você não gostou do texto, não concorda com o que escrevi e prefere continuar na sua condição de ser humano hipócrita... Perdão, heim? :)  

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

De volta à escrita


Uma forma que sempre recorro de colocar minha vida em ordem é colocar no papel meus pensamentos ou sentimentos, maturar sobre assuntos que ficam ecoando na minha cabeça. Muitas vezes na vida, geralmente por falta de tempo, não consigo sentar para escrever. E o tempo é mesmo o único impedimento que pode vir acompanhado de algum tipo de cansaço, pelos afazeres diários que não são poucos.
A única certeza que tenho é que inspiração não me falta. Minha cabeça pensante está sempre maturando os processos da vida que me aparecem. E esses podem ser uma simples cena do cotidiano, algo que li ou ouvi, um sentimento que aparece... Qualquer um deles disparam no meu cérebro um monte de letrinhas soltas e coloridas que ficam flutuando como se fossem astronautas na lua, esperando um espaço e o momento propício para chegar ao solo. Ah! E por falar em lua, a própria lua me causa esse disparo também. Mas isso é assunto pra outro texto.
O fato é que estou voltando a escrever, o que me deixa feliz, pois Freud tem a escrita como um tipo de sublimação de nossas neuroses, um mecanismo de defesa positivo para a sociedade. A sublimação é um meio de reconciliar as exigências sexuais com as da cultura, por conseguinte, reconciliá-las com a sociedade, ou reconciliar a sociedade com elas. 
Neurótica? Eu? Calma, gente! Para Freud, todos somos neuróticos. É o melhor lugar que podemos estar, segundo ele. Tem coisas muito piores. Mas isso também é assunto para outros textos, de preferência nos blogs profissionais que escrevo.
Voltando à minha ânsia pela escrita, posso afirmar que o bom de me ler daqui um tempo é constatar nitidamente as mudanças que há em mim, as coisas que carrego pela vida, meu jeito de ser expressado tão transparentemente e, claro, meu inconsciente se retratando.
Então, queridos leitores, não esperem muita coisa dos meus textos. Talvez não há muito que você vá encontrar, porque minha escrita é um encontro meu comigo mesma. E, se por acaso, acontecer de você se identificar, que bom! A casa é nossa!
Sendo assim, sejam sempre muito bem vindos! É bom poder entrar em contato de novo com vocês a partir dessa via de comunicação.