sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dizem que...


Dizem: quando nasce um bebê, nasce uma mãe também. E um polvo. Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos de controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora-terapeuta-cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro fisiológico, um robô que desperta ao som de choro. E principalmente: nasce a fada do beijo.
Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte – mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes. Se já era impossível, cuidado: ela vira muitas. Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis. Mães são fogo, ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, capazes de matar tudo o que zumbir perto delas: pernilongos, lagartas, leões, gente.
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto. Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo. Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor. Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho – alguém está?
Mente quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho. Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê – ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê? -, passou. A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. “Como esse menino cresceu”, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
Já os filhos, ah… Filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes do suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten. Onde fica a Guiné-Bissau. Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política. E até sua própria saúde. Mães são mulheres ressuscitadas. Filhos as rejuvenescem, tornando a vida delas mais perigosa – e mais urgente.
Quando nasce um bebê, nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada quando não há caminho, só para poder indicar: “É por ali, filho, naquela direção”.
(Desconheço a autoria)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

E que assim seja...



Que a minha intensidade não me impeça de respirar vezenquando, pois suspiro o tempo todo pra encontrar espaço nesse peito que já nem se cabe. 
Que essas explosões de vida, de beleza e dor me permitam ao menos, por alguns momentos, absorvê-las com tranqüilidade: para que eu consiga dormir sem ter de chorar ou gargalhar até a exaustão, pois sinto falta de apenas lacrimejar ou sorrir sem contrações, descontraída. 
Que a felicidade não me doa sempre e tanto, a ponto de assustar. 
Que haja alguma suavidade nos meus olhos diante do cotidiano e que eu não me emocione exageradamente com esta delicadeza. 
Que eu possa contemplar o mar sem que ele me afogue por completo. 
Que eu possa olhar o céu imenso e que isso não me aniquile por lucidez extrema. 
E que quando eu escrever um texto, ao ser publicado, assim, despido de qualquer revisão emocional, dotado apenas da intuição que me foi dada, que encontre a fonte precisa que agasalhe a palavra “palavra”. 
Que eu não viva só em caixa alta, com esses gritos que arranham silêncios e desgovernam melodias. 
Que eu saiba dizer sem que isso me machuque demais. 
Que eu saiba calar sem que isso me provoque uma tagarelice interna inquieta. 
Que eu possa saber dessa música apenas que ela se comunica com algo em mim, nada mais. 
Que eu possa morrer de amor e, ainda sim, ser discreta. 
Que eu possa sentir tristeza sem que ela se aposse de toda a minha alegria. 
E que, se um dia eu for abandonada pelo amor, não deixe que esse abandono seja para sempre uma companhia.


(Texto de Marla de Queiroz)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Conversando com Deus



Digam o que quiserem, pensem o que achar que devem, mas eu converso com Deus.
Antes de qualquer coisa preciso dizer que minha religião é Amor, apesar de ser católica por formação, parte da família ser evangélica, outra parte espírita e ter amigos ateus e de outras religiões como Umbanda e Candomblé. Respeito cada uma dessas pessoas com suas escolhas religiosas, até porque o que me importa mesmo é a espiritualidade que cada um cultiva dentro de si. Lembrando que a boca só fala aquilo que o coração está cheio, assim como nossas ações.
Portanto, quem vos fala não é ninguém que conhece muito de Bíblia ou qualquer desses instrumentos que as igrejas usam para evangelizar seus fiéis. O que eu vou escrever é baseado em experiências diárias, repetidas vezes, de uma vida inteira. “Coisas de Taiza Renata”, como tantos amigos me dizem.
Eu converso com Deus. Não estou falando da reza mecânica dos católicos, muito menos da entrega dramática do evangélico, mas de um amigo que tenho, próximo, fiel, companheiro, parceiro que eu converso de tudo mesmo. Não tenho o menor receio de tratar com Ele sobre qualquer assunto. Gente, quando digo “tudo”, quero dizer TUDO!
E aí, quando converso com Ele, sabe o que acontece? Ele me responde. (Oh oh... Agora ela pirou de vez! Rsrs...) E ele me responde tão prontamente que eu tenho medo de fazer pedidos. Por isso, tenho agradecido tanto, por tantas coisas que Ele me proporciona, me ajuda, me acompanha, me guarda, me protege, me honra. Muitas coisas nem preciso pedir, ele me dá, pura e simplesmente, de graça.
Confesso que, em algumas épocas (curtas), falo menos com Ele. Isso me faz falta! Quando isso acontece, Ele me chama. Ele conversa comigo. Ele me atenta, me cerca, me procura e me acha. (Pronto! Agora pode mandar internar a bichinha! Rsrs...)
O fato é que é muito bom saber que tem algo muito maior que te protege, te absorve, está contigo o tempo todo, algo em que você pode se apoiar quando se sente sozinha no mundo. Alguém que você possa falar das suas coisas mais íntimas, sem ser julgada ou criticada. Momentos em que, junto com essa energia, você possa sentir uma paz tamanha que transborda todo o seu ser. É um verdadeiro aconchego para a alma.
Por tudo isso, sigo agradecendo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Qual seria o verbo?



Ouvi dizer que a maior questão do ser humano está em Ser ou Não Ser? Shakspeare em sua peça “A tragédia de Hamlet” dramatizou com tamanha beleza que seu feito se eternizou no tempo.
Porém fico pensando... Será que a questão do ser humano não seria outra? Será que o verbo que tanto nos incomoda é esse mesmo? Eu apostaria na seguinte questão: Ser ou Estar?
Sim, por que somos seres mutáveis e a vida é muito dinâmica. Hoje somos isso, amanhã somos tão diferentes do que somos hoje. Então prefiro pensar que estamos, ao invés de sermos.
O verbo Ser me dá uma sensação de enquadramento ou limitação. Lembra-me aquela música: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim... Gabriela.” Odeio essa síndrome da Gabriela. Meu Deus, como é bom a gente poder mudar. Lógico se for pra evoluir, porque retroceder, ninguém merece, né?
A vida nos apresenta tantas coisas o tempo todo... Novos desafios, novas oportunidades e, principalmente, a ousadia de nos mostrar o quanto somos capazes, mais que imaginamos ser. Ela é dinâmica, mas de uma sabedoria única, de forma que hoje acreditamos ser algo, mas em muito pouco tempo, nos descobrimos outro. Outra postura, outro jeito de pensar e encarar a vida, outro molde, outro formato... algo que vai sendo mudado com as experiências da vida e que vai estar sempre apto a mudar, conforme as circunstâncias.
É confortável saber que somos mutáveis, que nos adequamos. Charles Darwin já dizia que quem tem maior adaptabilidade à mudanças, sobrevive mais. E assim tem sido há milhões e milhões de anos.
Portanto, hoje quero registrar que a vida não é, ela está. Nós não somos, nós estamos. E que bom que é assim, porque concordo com Vinícius de Morais quando diz “Sei lá, sei lá... A vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá... só sei que ela está com a razão.”
Então, que estejamos sempre crescendo, evoluindo, nos tornando melhores, que estejamos sempre olhando pra dentro, sem desprezar o que se mostra fora, respeitando o outro e caminhando com amor, fé, saúde e paz.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Encontros e Despedidas - Maria Rita


Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero
Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...

Essa música amanheceu rondando minha cabeça. Não a ouvi, ela apenas tocava dentro de mim. Por isso resolvi escrever sobre ela.
Vinícius de Morais dizia: “A vida é a arte do encontro, quando há tantos desencontros pela vida.” Pura verdade! Concordo com o poeta. Todos os dias nos deparamos com o encontro, pessoas que a gente não sabe muitas vezes de onde vieram ou pra onde vão. Às vezes, somos surpreendidos na rua por alguém que nunca vimos, a pessoa chega, te fala algo significativo que te faz ficar pensando nisso e se vão, você nunca mais a vê. Mas elas, por algum motivo, chegam na nossa estação e por ali permanecem durante algum tempo, tempo este que nunca sabemos qual é. O tempo é incerto. Pode ser por segundos, minutos, horas, anos. Algumas permanecem por tão pouco tempo, mas marcam tanto que acaba eternizado dentro de nós.
É mesmo como se fosse uma estação. Tanta gente, tantos trens, tantos destinos, tantas chegadas, tantas partidas... Algumas dessas chegadas ou partidas nos provocam choro, porém outras nos trazem tantos sorrisos. Algumas vem pra ficar e como é bom tê-las por perto. Outras tardam na hora de ir, mas ainda bem que se vão.
Esse momento da minha vida me leva a pensar em tudo isso e eu me sinto caminhando nessa estação que chamamos de vida. Vejo-me caminhando entre tantas pessoas, algumas apressadas, outras paradas, outras embarcaram há tanto tempo, outros na espera do melhor momento ou do melhor destino. E eu caminho, tranquilamente entre elas e observo. Algumas vezes embarco, mas desço sempre que algo me diz que aquele não é o caminho. A roupa colorida e esvoaçante que me veste, deixa aquele ambiente mais leve e eu posso perceber melhor algumas coisas que muitas vezes me passavam despercebidos. Estou atenta!
E é bom ter liberdade de caminhar desprentenciosamente por aí, sem me preocupar muito com o destino final. A gente embarca num trem de destino certo, aquele que você acha que será melhor pra sua vida, mas você percebe que ali não será o melhor lugar, onde você possa ficar à vontade na arte de ser você mesma. E aí você pode voltar, pode escolher outro destino, até porque dentro da gente esse destino já é certo. A gente bem sabe onde quer chegar. Eu sei.
E também há momentos que você embarca e se sente num porto seguro, se sente acalentado. Esse trem te dá uma sensação de bem estar inigualável. As poltronas são largas e macias. Os atendentes são educados e muito atenciosos, atentos ao seu menor sinal de desconforto e ali aparecem, prontamente pra nos apoiar. Assim são alguns amores e amigos verdadeiros. Pessoas que chegam pra ficar e fazem questão de ali estar, somando nos nossos dias, constuindo histórias, trocando experiências e vivências e fazendo de nós pessoas melhores.
E assim é a viagem! Assim é a vida. Sábia vida!!!




domingo, 11 de maio de 2014

Ser Mãe


Conversando com uma amiga essa semana no intervalo da faculdade, ela estava me dizendo o quanto eu transpareço a minha realização por ser mãe. Não é a primeira vez que ouço isso. De fato, ser mãe é a maior de todas as realizações da minha vida.
Antes de engravidar, eu conversava com Deus: “Pai, se o Senhor quiser me dar um castigo nessa vida, me coloque estéril nesse mundo.” E Ele foi tão generoso comigo que me deu três meninos saudáveis, lindos por dentro e por fora e que me abastecem de amor e felicidade.
Vejo tanta gente dizer que não quer filhos ou que acham um absurdo me ver com três nos tempos atuais. E meninos, quando existe uma crença que criar homens é mais trabalhoso. Não vejo a menor dificuldade nisso!
Não que meus meninos não sejam trabalhosos, mas me dão o trabalho que as crianças em geral dão, independente do gênero. Algo que já era esperado, previsto. A gente sabe que cada fase tem certa dedicação, algumas exigem maior cuidado, outras menos.
Não que às vezes eu não sinta vontade de ter um tempo só pra mim ou vontade de não ter que me preocupar em dar água nem a um perequito. Sim, sinto falta às vezes. Mas é tão raro!!! Meus filhos não me sobrecarregam. Ao contrário, ele recarregam minha bateria na grande maioria das vezes.
Não que eu não encontre algumas dificuldades e incertezas no caminho nessa missão de ser mãe. Seria tão mais fácil se houvesse um manual de instruções ou uma fórmula certa, né? Porém, estamos falando de seres humanos, cada qual com sua personalidade, sua singularidade e suas necessidades. Teríamos, nesse caso, que ter três manuais diferentes. Rsrs...
Eu sei que o mundo está louco, desgovernado, que a violência aumentou, que as drogas estão cada vez mais próximas de nós... porém minha Síndrome de Poliana permanece ativa e continuo vendo tudo pelo lado bom. Acho legal a gente possa valorizar o que é bom quando olhamos tantas coisas ruins à nossa volta. Isso faz o bom ficar ainda mais especial.
O mais interessante nessa tarefa de ser mãe é o quanto a gente aprende. Embora pareça que somos uma espécie de professoras, a gama de informações que eles nos passam e experiências que eles nos permitem vivenciar, é muito maior do que passamos pra eles.
Pensando nessa conversa, tudo que posso dizer é que sou sim uma mãe realizada. A Deus só tenho que agradecer imensamente e pedir que esteja sempre de mãos dadas comigo me dando muita sabedoria nessa tarefa que Ele me confiou e protengendo meus tesouros das maldades desse mundo.
Aos meus filhos... Nossa! O que dizer? Sem palavras pra expressar o tamanho desse amor e dessa gratidão por tudo que eles são, fazem e representam na minha vida. São partes do meu todo, as quais são essenciais para o meu bem viver.
E que possamos estar sempre juntos, sendo apoio um para o outro nos percalços do caminho, nos amando e respeitando para o todo o sempre, seguindo pelo caminho do coração.