quarta-feira, 8 de agosto de 2012

História de uma noite


Estava deitada, quase dormindo, quando ouvi os gritos desesperados de uma mulher na rua. Leventei-me da cama correndo e fui pra sacada, tentar entender o que estava acontecendo, pois talvez eu pudesse fazer algo.

Era uma briga acalorada entre namorados. Pelo que entendi, ele (bêbado ou drogado, sei lá) a pegou com a boca na botija, ou melhor, com a boca na boca de outro e perdeu totalmente o controle. Queria bater nela, tamanha sua fúria diante da traição mas, foi impedido por um tio que não sei de onde surgiu, talvez um anjo de Deus caído do céu, que segurava o rapaz fortemente, evitando coisa pior.

Enquanto isso, pessoas de todos os prédios ao redor saiam em suas janelas e gritavam: “Covarde! Chamem a polícia!” Outros faziam pior, zombavam, caçoavam do rapaz e faziam piadinhas, risos sarcásticos. Meu marido me chamava pra entrar, chamando o rapaz de babaca e irresponsável, mostrando com sua postura que só importa a vida dele ali, a novela que estava ótima, a cama quentinha... sua vida tranquila.

Eu, a estranha no ninho, me senti muito mal, como se sentisse a angústia desse menino, a dor sentida pela traição, fiquei imaginando os motivos que o levaram a beber... Queria fazer algo. Descer e conversar com ele. Tentar acalmar um pouco seu coração. Ao mesmo tempo, ficava ponderando o fato de me intrometer na vida alheia. Enfim, ali fiquei. 

Enquanto o tio o segurava fortemente pelos braços, ele dizia: “Tio, me solta, tio! Eu só quero conversar com ela. Essa mulher é minha vida!” Ele sofria a dor de amar e não se amado.

Deite-me novamente com uma angústia no peito enorme, depois que as coisas se acalmaram. O tio soltou o menino, o casal entrou no carro pra conversar. De repente, mais gritos. Ele se enfurecia novamente.

Nesse momento, peguei o celular e liguei pra polícia. Eu entendia completamente a dor dele, mas isso não justificava qualquer tipo de violência contra a mulher. Quando estou falando ao telefone, encosta uma viatura. Alguém acudiu antes.

Ai, como era de se esperar de um rapaz bêbado, ele falou muitas bobagens para os policiais e já haviam mais pessoas em volta.

A menina chorava compulsivamente e passava as mãos na cabeça, andando de um lado para outro. Na chegada da polícia, ela não quis se manifestar, como também é esperado por mulheres violentadas. 

Então me veio o pensamento nela. Seus gestos denunciavam seu desespero, talvez arrependimento por ter traído o namorado que a ama tanto, quem sabe traiu porque não gosta mesmo dele, uma alternativa para ele largar de vez do pé dela... Não importa. Ela estava desesperada. Entrou no carro e foi embora.

Ele ainda ficou lá, esbravejando, até que começou a chorar copiosamente, pedia pra “ir embora hoje”, ameaçava que se não voltasse ia pular do prédio, tentava se explicar às pessoas do seu círculo que ali estavam... e chorava, chorava, chorava.

Os policiais já tinham ido embora, as luzes dos prédios já estavam apagadas, os curiosos de plantão não achavam ali mais nenhuma graça... Nada mais existia para uma platéia.

Mas eu permaneci ali, recostada na minha sacada, morrendo de dó desse moço que, bêbado ou não, sentia-se abandonado, carente, traído, tentando explicar o que ele próprio não consegue entender. Querendo voltar pra onde não deveria ter saído, quem sabe o útero de sua mãe. É tarde!!! A vida é aqui, agora. Só nos resta enfrentar.

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