sexta-feira, 6 de maio de 2011


Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos.
É ser dócil e falante, impetuoso e tímido.
É dar uma galinha para não entrar na briga e um nelore para sair dela.
É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno.
É ter latifúndio e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora.
Ser goiano é saber perder um pedaço de terras para Minas, mas não perder o direito de dizer também "uai, este negócio, este trem", quando as palavras se atropelam no caminho da imaginação.
O goiano da gema vive na cidade com um carro-de-boi cantando na memória.
Acredita na panela cheia, mesmo quando a refeição se resume em abobrinha e quiabo.
Lê poemas de Cora Coralina e sente-se na eterna juventude...
Ser goiano é saber cantar música caipira e conversar sobre Beethoven, Chopin, Tchaikovsky e Carlos Gomes.
É acreditar no sertão como um ser tão próximo, tão dentro da alma.
É carregar um eterno monjolo no coração e ouvir um berrante tocando longe, bem perto do sentimento.
Ser goiano é possuir um roçado e sentir-se um plantador de soja, tal o amor à terra que lhe acaricia os pés.
É dar tapinha nas costas do amigo, mesmo quando esse amigo já lhe passou uma rasteira.
O goiano de pé-rachado não despreza uma pamonhada e teima em dizer "ei, trem bão", ao ver a felicidade passar na janela, e exclama "viche", quando se assusta com a presença dela.
Ser goiano é botar os pés uma botina ringideira e dirigir tratores pelas ruas da cidade.
É beber caipirinha no tira-gosto da tarde, com a cerveja na eterna saideira.
É fabricar rapadura e ter um 'passopreto' nos olhos.
O goiano histórico sabe que o Araguaia não passa de um 'corgo', tal a familiaridade com os rios. Vive em palacetes e se exila nos botecos da esquina.
Chupa jabuticaba, come bolo de arroz e toma licor de jenipapo.
O bom goiano aceita a divisão do Estado, por entender que a alma goiana permanece eterna na saga do Tocantins.
Ser goiano é saber fundar cidades.
É pisar no Universo sem tirar os pés deste chão parado.
É cultivar a goianidade como herança maior.
É ser justo, honesto, religioso e amante da liberdade.
Brasília em terras goianas é gesto de doação, é patriotismo. Simboliza poder.
Mas o goiano não sai por aí contando vantagem.
Ser goiano é olhar para a lua e sonhar, pensar que é queijo e continuar sonhando, pois entre o queijo e o beijo, a solução goiana é uma rima.

(Texto de José Mendonça Teles)

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