quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amor pra toda vida


Todo mundo busca, mas pouca gente consegue encontrar um amor que supere o maior dos desafios, o tempo. Qual seria o segredo para um casal continuar junto apesar das mudanças de temperamento dela, da teimosia dele e das inúmeras divergências de uma vida toda? “Tolerância e bom humor”, afirma a psicanalista Lidia Aratangy, que trabalha há mais de 30 anos com terapia de casais, ela mesma casada há quase 50 anos. Em seu livro O Anel Que Tu Me Deste - O Casamento no Divã (Primavera Editorial), Lidia reforça o que é senso comum: “Cada casal deve cultivar tolerância, afeto, diálogo e sinceridade. Eis os ingredientes que não podem faltar para se construir uma relação duradoura e feliz."
Num grande amor, capaz de sobreviver ao lado B da vida (a rotina, a dor, a doença, as instabilidades e as dificuldades financeiras) é preciso dourar a pílula e entender que, ao contrário da alma gêmea, o outro é, na verdade, muito diferente de nós. “Quanto mais cientes das diferenças somos, mais tolerantes nos tornamos diante dos conflitos que delas resultam. Aceitá-las deixa o relacionamento mais leve”, diz o escritor americano John Gray em seu livro Por Que Marte e Vênus Colidem - Como Homens e Mulheres Podem Driblar o Estresse (ed. Rocco).
Mais do que as diferenças, há que se lidar com a transformação pela qual cada um passa ao longo da vida. O companheiro não será sempre o príncipe por quem você se apaixonou. É preciso apaixonar-se todos os dias por um novo homem, como sugere Lidia. “O rapaz de 20 anos que foi seu namorado não é o mesmo aos 30, quando virou pai. E a princesinha de 20 anos se revela outra pessoa diante do filho com febre. Ambos estão em contínua mudança e, para que continuem juntos, têm de aceitar a beleza desse processo”.
A ilusão do amor romântico pode precipitar o fim do relacionamento. “O erro está em idealizar o par amoroso e, para manter essa idealização, não poupar esforços”, diz a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins em seu livro A Cama na Varanda - Arejando Nossas Ideias a Respeito de Amor e Sexo (ed. Best Seller). “Imagina- se que no casamento se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, marido e mulher esperam ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.”
Ledo engano. “Casamento é feito de doação, generosidade. Para que dê certo, cada um tem que se ocupar de fazer o outro feliz. E saber que o outro não pode nos dar aquilo que temos que conquistar por nós mesmos”, insiste a terapeuta de família e casal Lana Harari. Mas cuidado: doação não significa anulação da personalidade. “Muitos casais acreditam que precisam se sacrificar para agradar o parceiro. De fato, todos os relacionamentos exigem adaptações, compromissos e sacrifícios, mas não temos que abrir mão de nós mesmos”, diz John Gray. Todo casal tem projetos comuns, crenças e ideais compartilhados, o que não pode impedir que mantenham sua individualidade. “Quando alimento meu universo interno, me torno mais interessante para ele, sem me colocar em sua sombra e em sua dependência. Isso é autonomia”, explica Lana.

A ARTE DE CONVERSAR
Que uma relação amorosa não sobrevive sem diálogo, ninguém duvida. Dialogar, porém, não significa exclusivamente discutir a relação. É mais do que isso e pode tratar de fatos do dia a dia, da família, do trabalho e até da vida e suas implicações. “Os homens sempre imaginam que vão levar bronca quando começa uma conversa a dois”, diz Lidia. A diferença é que eles, criaturas mais operacionais, encaram conversas como um jeito de resolver problemas. Já as mulheres falam, quase sempre, para repensar a própria vida. “Temos de entender que solucionar problemas é a forma masculina de demonstrar interesse”, acrescenta a Lidia.
Outro bom conselho: aprenda a ouvir as queixas e as críticas dele sem se revoltar. “O homem não encontra na mulher uma interlocutora para falar de seus sentimentos porque ela não encara como sentimentos as experiências que ele traz para a conversa. Mal interpretado, acaba se silenciando, como alerta o psicoterapeuta junguiano Alberto Lima, em seu livro Alma, Gênero e Grau, (ed. Devir Livraria). A comunicação precisa ser sempre cuidadosa. Críticas fazem parte, mas é preciso também ressaltar as qualidades do parceiro, usando palavras e tom adequados.
Para que a conversa não machuque, revele seus sentimentos, sem acusar. “Diga sempre: é difícil para mim quando... ou fico triste ao perceber que...ou me senti mal ao ver você... Evite colocações como: você me faz infeliz ou você não sabe tal coisa”, enfatiza Lana. Isso não quer dizer que você deva engolir sapos. “Pessoas que não dizem o que sentem acumulam mágoas e, mais cedo ou mais tarde, elas reaparecem e daí pode ser tarde demais”, diz a terapeuta.
Conversar é necessário, mas nem só de palavras se faz uma boa conversa. Sob a perspectiva taoísta, o sexo é uma ótima maneira de exercitar a capacidade de dialogar de um casal, pois ajuda a entrar em contato com sentimentos profundos. “Uma vida sexual feliz é uma forma de comunicação e estimula a conversa, ajuda a descobrir as compatibilidades e o desejo de se ajudarem mutuamente na jornada espiritual”, afirmam Mantak Chia e W.U. Wei, autores do livro Reflexologia Sexual - O Tao do Amor e do Sexo (ed. Cultrix).
O sexo e o companheirismo devem andar juntos – um não exclui o outro. Aliás, o sexo é um termômetro do sentimento. Assim como um casal deve cuidar dos interesses em comum, também precisa manter acesa a chama da paixão. “Se a relações não estão satisfatórias, mas ainda há sentimento, é preciso resolver o conflito. Quanto maior o intervalo entre os encontros sexuais, maior o afastamento. A sexualidade precisa ser alimentada e reinventada sempre”, afirma Mantak Chia.

FELICIDADE
A ideia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem da união. Algumas décadas atrás, uma mulher se considerava feliz se seu marido fosse bom pai de família, protetor e provedor. Para o homem, a boa esposa seria a que cuidasse da casa e dos filhos. “Hoje, as expectativas tornaramse mais difíceis de serem satisfeitas”, filosofa Regina Lins. Difíceis, sim, mas não impossíveis. Uma das principais alegações dos casais que se divorciam é que o casamento caiu na rotina. “Na terapia, tentamos ajudar a quebrar o ciclo, evitando as ciladas que o tempo de relação vai criando. É preciso identificar os comportamentos que irritam cada um e analisar a reação de ambos os lados para poder mudar o rumo das coisas. Isso ajuda a entender que não é o outro que nos faz infelizes, mas a maneira como interpretamos suas atitudes e como reagimos a elas”, explica Lana.
Uma das chaves da felicidade a dois é a capacidade de se adaptar. “Como tudo muda o tempo todo, o casal tem de administrar a imprevisibilidade da vida, sem sobrecarregar a relação com as tensões do dia a dia. Deve desenvolver a capacidade de resolver os problemas juntos”, diz Lana.“Amor companheiro nasce da criatividade, que ensina a lidar com as divergências, sem querer mudar o parceiro”, diz Lidia.
A força de uma relação também depende de preservar os interesses comuns do casal – praticar esportes juntos, dançar, viajar e dividir tarefas do cotidiano. É fundamental ainda ter amigos e hobbies em comum e compartilhar responsabilidades. Tudo isso une um casal. Já a falta de confiança afasta. “Todos temos direito à privacidade. Mas alimentar segredos, omitir fatos importantes e mentir é perigoso”, alerta.
Isso, claro, e mais o afeto. A psicóloga e coach Iraceles Pires, membro da Sociedade Brasileira de Coaching, lembra que nenhum relacionamento sobrevive à falta desse sentimento. John Gottman, professor de psicologia da Universidade de Washington, garante que cônjuges felizes dedicam, no mínimo, cinco horas por semana para a relação. Explicitam o carinho em beijos, abraços, boas-vindas, despedidas calorosas e em declarações públicas e privadas de seu respeito, admiração e gratidão. Para ele, essa seria a fórmula de construir um amor companheiro.

(Texto de Melissa Diniz)

Nenhum comentário:

Postar um comentário