quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Adulto pra que?

Estava lendo uma crônica da Martha Medeiros chamada Delicadeza e me atentei para uma frase: “Tudo o que não for ‘adulto’ passa à categoria de ridículo.” Tem coisa mais ridícula que esta?

Costumo dizer que vou ficar velhinha, mas com alma de criança, porque não tem nada mais gostoso do que a pureza de alma, do que ser verdadeira sempre, do que uma gargalhada gostosa, do que um mal feito ou uma arte bem feita, e tantas outras coisas típicas de criança. O amor da criança é puro, é claro, não engana ninguém. Se ela gosta, gosta e quer estar perto, cuida. Mas se não gosta, fica de mal e pronto. Assunto resolvido. E mexe com quem ela gosta pra ver! Vai ser travessura na certa, com direito à língua pra fora e um pomposo “bem feito pra você”. 

Amor de adulto é diferente. É polido, frágil, cheio de exigências egoístas, de cobranças. Canso de ver mulheres e homens que falam que amam sem amar verdadeiramente, simplesmente pra cumprir o pro forme social exigido para os casais. Ou ainda casais que têm uma vida íntima extremamente vazia mas que insistem em provar aos outros seu amor atracando-se em abraços e beijos. Sempre me pergunto se essas pessoas sabem o que é o amor e se já conseguiram sentir esse bálsamo verdadeiramente.

A criança sorri alto, gargalhada gostosa, sem se preocupar com o ambiente em que está ou as pessoas presentes. Você nota claramente se agradou uma criança pela intensidade do seu sorriso. Ela não disfarça, não faz de conta. E se notar no seu semblante transparente que ela não gostou, melhor nem perguntar, porque a resposta verdadeira virá com toda certeza.

E quando mentem para uma criança??? Imperdoável! E mico na certa pra quem mentiu, porque criança tem coragem e tem sempre alçada a bandeira da sinceridade. Com toda certeza ela vai tirar a história a limpo, além de avisar aos seus amigos pra tomarem cuidado com aquele mentiroso. Criança também mente, mas geralmente é por defesa própria e nunca pra prejudicar alguém, por maldade.

Tenho a impressão que a criança é um peixe em alto mar. Não um peixe qualquer nem um mar qualquer. Nesse mundo-mar, habitam somente peixes bons, que não usam de nenhuma artimanha natural para comer o outro. Não tripudiam, não enganam, não passam por cima do outro para satisfazer seus caprichos. Respeitam-se mutuamente e se ajudam sempre que podem. E ali eles ficam por muito tempo, vivendo em harmonia.

À medida que vamos crescendo, ficando adultos, nosso mundo vai ficando menor, mais limitado, mais sufocante. Quando nos demos conta, as correntezas marítimas nos trouxeram para a beira da praia. Ali você tem que tomar cuidado com tudo e todos, pois pode ser engolido por outro peixe, ou alguém pode “simplesmente” pisar em você. Até com a água dali você tem que ficar esperto, porque ela pode te jogar a qualquer momento na areia e você, então morrerá seco e sem ar. Ali, o que vale é a lei do mais forte. É o famoso “cada um por si e Deus por todos”.

Esse é o mundo adulto. Cheio de regras, repressões, falsidades, egoísmos, divisão de classes, entre tantos outros elementos. E nesse mundo, aqueles que tanto cumprem as regras e procuram ser o mais correto possível, num momento do dia cheio de trabalho e afazeres em que param para respirar, olham aquela criança e sentem saudade do tempo em que podiam fazer tudo aquilo, sem contravenções.

Mas a estrada da vida é uma via de mão única, onde só há um sentido a caminhar: avante. Não dá pra voltar no tempo e voltar a ser criança. Porém, você pode (e deve sim) conservar dentro de você o seu lado criança, o mais verdadeiro, o mais simples, o mais puro e, com toda certeza, o que te fará mais feliz.

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