segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reencontro


Eu vim aqui me buscar. E aqui parecia ser longe, muito longe do lugar onde eu estava, o medo costuma ver as distâncias com lente de aumento. 

Vim aqui me buscar porque a insatisfação me perguntava incontáveis vezes o que eu iria fazer para transformá-la e chegou um momento em que eu não consegui mais lhe dizer simplesmente que eu não sabia. 

Vim aqui me buscar porque cansei de fazer de conta que eu não tinha nenhuma responsabilidade com relação ao padrão repetitivo da maioria das circunstâncias difíceis que eu vivenciava. 

Vim aqui me buscar porque a vida se tornou tediosa demais. Opaca demais. Cansativa demais. Encolhida.
Vim aqui me buscar porque, para onde quer que eu olhasse, eu não me encontrava. Porque sentia uma saudade tão grande que chegava a doer e, embora persistisse em acreditar que ela reclamava de outras ausências, a verdade é que o tempo inteirinho ela falava da minha falta de mim. 

Vim aqui me buscar porque percebi que estava muito distante e que a prioridade era eu me trazer de volta. Isso, se quisesse experimentar contentamento. Se quisesse criar espaço, depois de tanto aperto. Se quisesse sentir o conforto bom da leveza, depois de tanto peso suportado. Se quisesse crescer no amor.

Vim aqui me buscar, com medo e coragem. Com toda a entrega que me era possível. Com a humildade de quem descobre se conhecer menos do que supunha e com o claro propósito de se conhecer mais. Vim aqui me buscar para varrer entulhos. Passar a limpo alguns rascunhos. Resgatar o viço do olhar. Trocar de bem com a vida. Rir com Deus, outra vez. 

Vim aqui me buscar para não me contentar com a mesmice. Para dizer minhas flores. Para não me surpreender ao me flagrar feliz. Para ser parecida comigo. Para me sentir em casa, de novo.
Vim aqui me buscar. Aqui, no meu coração.

(Texto de Ana Jácomo)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Armadilhas



Vamos combinar que muitas vezes não há mistério algum, vilão algum, nenhuma influência sobrenatural, questão de sorte. A gente sabe que se tocar naquele fio desencapado é choque garantido, como da última vez, mas a gente toca. A gente sabe que certos adubos são infalíveis para fazer a nossa dor crescer, mas a gente aduba. A gente sabe os tons emocionais que desarmonizam a pintura da tela de cada dia, mas a gente escolhe exatamente esses para pintar, mesmo dispondo de outros tantos na nossa caixa de lápis de cor. A gente sabe a medida do tempero e a desmedida, como sabe o sabor resultante de cada uma. Por histórico, a gente sabe a resposta muito antes de refazer a pergunta, mas a gente refaz.


Vamos combinar que muitas vezes não há nada de tão imprevisível, de tão inimaginável, muito menos entrelinhas, muito menos mau-olhado. A gente sabe, por memória das andanças, para onde a estrada de certos gestos nos leva, mas a gente segue. A gente sabe no que dá mexer em casa de marimbondo, mas a gente mexe. A gente sabe que não vai receber o que espera, mas a gente oferta sempre pela penúltima vez. A gente sabe que algumas praias são traiçoeiras, que não sabemos sequer nadar direito, que o afogamento é a coisa mais provável de todas, mas a gente mergulha. A gente sabe que a realidade, por mais dura que seja, precisa ser encarada com os olhos mais abertos do mundo, mas a gente inventa todo jeito que pode para desviar o olhar.


Vamos combinar que muitas vezes não há segredo algum, inimigo algum, interrogação alguma, nenhuma entidade obsessora além da nossa autosabotagem. A gente sabe que esticar a corda costuma encolher o coração, mas a gente estica. A gente sabe que nos trechos de inverno é necessário se agasalhar, mas a gente se expõe à friagem. A gente sabe que não pode mudar ninguém, que só podemos promover mudanças na nossa própria vida, mas a gente age como se esquecesse completamente dessa percepção tão sincera. A gente lembra os lugares de dor mais aguda onde já esteve e como foi difícil sair deles, mas, diante de circunstâncias de cheiro familiar, a gente teima em não aceitar o óbvio, em não se render ao fluxo, em não respeitar o próprio cansaço.


Eu pensava em todas essas armadilhas enquanto caminhava na Lagoa, um dia de céu de cara amarrada, um tiquinho de sol muito lá longe, tudo bem parecido comigo naquela manhã. Eu me perguntei por que quando mais precisamos de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos. Que estranha escolha é essa que faz a gente alimentar os abismos quando mais precisa valorizar as próprias asas. Como conseguimos gostar tanto dos outros e tão pouco de nós. Eu me perguntei quando, depois de tanto tempo na escola, eu realmente conseguirei aprender, na prática, que o amor começa em casa. Por que, tantas vezes, quando estou mais perto de mim, mais eu me afasto. Eu me perguntei se viver precisa, de fato, ser tão trabalhoso assim ou se é a gente que complica, e muito. Como conseguimos ser tão vulneráveis, ao mesmo tempo que tão fortes. Somos humanos, é claro, mas ser humano é ser divino também.


Eu não tenho muitas respostas e as que tenho são impermanentes, como os invernos, os dias de céu de cara amarrada, os lugares de dor, os abismos todos, o bom uso das asas, os fios desencapados, as medidas e as desmedidas. Tudo passa, o que queremos e o que não queremos que passe, a tristeza e o alívio coabitam no espaço desta certeza. Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. A lembrança de que as perguntas mudam. Um modo de acreditar que os tiquinhos de sol possam sorrir o suficiente para desarmar a sisudez nublada de alguns céus. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer.

(Texto de Ana Jácomo)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O doce sabor da mulher deslumbrante


Uma mulher deslumbrante não é aquela que mais homens tem a seus pés. Mas sim aquela que tem apenas um que a faça realmente feliz.

Uma mulher formosa não é a mais jovem. Nem a mais frágil, nem aquela que tem a pele mais sedosa ou o cabelo mais chamativo. É aquela que com apenas um sorriso franco e aberto e um bom conselho pode alegrar-te a vida.

Uma mulher de valor não é aquela que tem mais títulos ou cargos acadêmicos, e sim aquela que sacrifica seus sonhos temporariamente para fazer felizes os demais.

Uma mulher deslumbrante não é aquela mais ardente e sim a que vibra ao fazer amor somente com o homem que ama. 


Uma mulher deslumbrante não é aquela que se sente adulada e admirada por sua beleza e

elegância, e sim aquela mulher firme de caráter. Que pode dizer "Não".


E um Homem...

Um homem deslumbrante é aquele que valoriza uma mulher assim...

Que se sente orgulhoso de tê-la como companheira...

Que sabe acariciá-la como um músico virtuoso toca seu amado instrumento...

Que luta a seu lado compartilhando todas as suas tarefas, desde lavar pratos e preparar a mesa, até devolver as massagens e o carinho que ela te proporcionou antes.

A verdade, companheiros homens, é que as mulheres com mania de serem "mandonas" não levam vantagens...

Que tolos temos sido e somos quando valorizamos um presente somente pela vistosidade do pacote...

Tolo e mil vezes tolo o homem que come sobras na rua, tendo um deslumbrante manjar em casa!

Esse texto é para as mulheres deslumbrantes, para reforçar sua auto estima e para os homens para que meditem sobre isto.

(Texto de Gabriel Garcia Márquez)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sensibilidade


Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Muita. Todo dia.

Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade. 

Essa sensação, de vez em quando, de ser estrangeiro e não saber falar o idioma local, de ser meio ET, uma espécie de sobrevivente de uma civilização extinta. 

Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. 

Esse amor tão vívido em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza. 

Esse cuidado espontâneo com os outros. Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. 

Esse melindre de ferir por saber, com nitidez, como dói se sentir ferido.


Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Muita. Todo dia.

Essa saudade, que às vezes faz a alma marejar, de um lugar que não se sabe onde é, mas que existe, é claro que existe. 


Essa possibilidade de se experimentar a dor, quando a dor chega, com a mesma verdade com que se experimenta a alegria. 


Essa incapacidade de não se admirar com o encanto grandioso que também mora na sutileza. 


Essa vontade de espalhar buquês de sorrisos por aí, porque os sensíveis, por mais que chorem de vez em quando, não deixam adormecer a ideia de um mundo que possa acordar sorrindo. Pra toda gente. Pra todo ser. Pra toda vida.


Eu até já tentei ser diferente, por medo de doer, mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim.


(Texto de Ana Jácomo)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Com o coração


Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.

Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.

Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.

Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.

Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.

Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.

Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e ninguém levou a sério.

Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.

Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.

E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

(Texto de Ana Jácomo)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Todo dia existe Deus



Um dia me perguntaram se eu acreditava em Deus.
Eu então lhes respondi da maneira como eu pensava.
Entre a lua e as estrelas num galope, num tropel,
Pisando nas nuvens brancas eu vi Deus passar no Céu.

Todo dia existe Deus...
No sorriso da criança, no canto dos passarinhos,
No olhar, na esperança...

Todo dia existe Deus...
Na harmonia das cores, na natureza esquecida,
Na fresca aragem da brisa, na própria essência da vida...

Todo dia existe Deus...
No regato cristalino, pequeno servo do mar,
Nas ondas lavando as praias, na clara luz do luar...

Todo dia existe Deus...
Na escuridão do infinito, todo ponteado de estrelas,
Na amplidão do universo, no simples prazer de vê-las...

Todo dia existe Deus...
Nos segredos desta vida, no germinar da semente,
Nos movimentos da Terra, que gira incessantemente...

Todo dia existe Deus...
No orvalho sobre a relva, na natureza que encanta,
No cheiro que vem da terra, e no sol que se levanta...

Todo dia existe Deus...
Nas flores que desabrocham perfumando a atmosfera,
Nas folhas novas que brotam anunciando a primavera...

Deus é capaz, Deus é paz,
Deus é a esperança, é o alento do aflito,
O Criador do Universo, da luz, do ar, da aliança...

Deus é a justiça perfeita, que emana do coração.
Ao perdoar quem ofende, Ele é o próprio perdão...

Será que você não viu ainda o rosto de Deus
No colorido mais belo dos olhos dos filhos seus?

Deus é constante e perene, é Divino, de tal sorte
Que sendo a essência da vida é o descanso na morte...

Não há vida sem a volta e não há volta sem vida.
A morte não é a morte, é só a porta da vida...

Todo dia existe Deus...
No ciclo da natureza, neste ir e vir constante,
No broto que se renova, na vida que segue adiante,
Em quem semeia bondade, em quem ajuda o irmão
Colhendo felicidade, cumprindo a sua missão...

Todo dia existe Deus...
No suor de quem trabalha, no calo duro das mãos,
No homem que planta o trigo, no trigo que faz o pão,
Você pode sentir Deus dentro do seu coração...

(Texto de Rita Pando)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Metade



Que a força do medo que tenho

não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda,
ainda que em tristeza.
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada,
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor.
Apenas respeitadas, como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme
na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso,
e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
a outra metade é cansaço.

Que a vida nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade é canção.

Que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e a outra metade... também.

(Poema de Oswaldo Montenegro)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Viver não dói


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.

(Texto de Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O laço e o abraço


Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. 
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. 
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!


(Texto de Mário Quintana)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Silêncio


É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. 

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

(Texto de Clarice Lispector)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O blog do meu filho


Não sei se vocês sabem, mas quem me deu a idéia de fazer um blog foi meu filho mais velho, o Luiz Otávio. Ele fez o primeiro dele era sobre onças pintadas. Logo depois, tomou gosto pela coisa e fez outro com dicas para tornar o mundo melhor.

Então, o João Fernando, irmão que é três anos mais novo, fez também um blog sobre dicas escolares. Sabendo do quanto gosto de escrever, pois já tinha alguns textos guardados sobre diversos assuntos, me ensinaram e incentivaram a fazer um blog e desde então, nunca mais abandonei. Somos uma família de blogueiros.

Agora, Luiz Otávio saiu do Blogger (do Google) e resolveu fazer um novo blog no UOL. E hoje meu texto é para divulgar a página dele: http://luizotaviomg.zip.net .

Não é porque ele é meu filho, muito menos porque sou uma mãe super coruja que se diverte com as peripécias das crianças, além de estimulá-los. Mas não é que o menino tem talento? Claro que vocês vão encontrar muitos erros de vocabulário, gramaticais ou de pontuação. Porém é inegável o quanto ele é fera para se expressar.

O blog é um tipo de diário. Ele descreve momentos do dia dele, portanto tem expressões e sentimentos bastante adolescentes (ele está com 13 anos) e o mais bacana é que os textos são um misto de tragédia e comédia. Muito bonitinho!!!

Dizem que “o fruto não cai longe do pé”. De fato. Meus filhos adoram tecnologia, música e escrever. Puxaram a mim. Também adoram fazenda, pescaria e construção. Puxaram ao pai. A genética não falha.

Falando nisso, recebi um e-mail hoje de uma amiga a respeito do que conversávamos essa semana: os DNA’s estão mudando. As crianças de hoje são notoriamente diferentes, mais espertas, mais talentosas, mais criativas e têm uma facilidade de transformação do meio assustadora.

O blog trás o dia-a-dia deles sem mim dentro de casa. Imagina a confusão! Eu monitoro o dia todo do escritório, mas pelo telefone. Funciona, mas por pouco tempo. Assim, tenho que ligar muitas vezes e tantas outras vezes sou eu quem recebo ligação.

Gostei muito das verdades que ele escreve, não se importando com o que os outros pensem ou se eu vou brigar. Ele simplesmente escreve “o que vem na telha”. Acho isso importante na formação do ser humano: ser ele mesmo, apesar de todos os pesares, assumindo o que lhe espera depois.

É claro que não vou brigar, pois não quero tolher a criatividade dele. Pelo contrário, tem sido uma excelente oportunidade para abrirmos diálogo entre nós sobre diversos assuntos, a começar pelos erros de escrita até as atitudes do cotidiano.

Apesar de tudo, tenho o maior orgulho desses meninos. Não saio aí supervalorizando os filhos que tenho, mas essas pequenas me enchem de orgulho e felicidade por dentro. É um prazer mais que sexual ver essas crianças crescendo, criando, produzindo e enchendo meus dias de histórias regadas de muita alegria e diversão.

Fico feliz por ser mãe de três desses novos seres, sem dúvida mais evoluídos e iluminados, e poder ensinar tantas coisas quanto tenho aprendido com eles.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Migalhas

 
Ora, se é para ir na feira e escolher a fruta, escolha a melhor! Leve para casa a mais suculenta, mais brilhante, mais doce.
 
Se é para ir ao açougue, e se o dinheiro dá, leve a melhor carne. Se pode comprar filet-mignon vai levar “coxão-duro” para o bife?
 
Vai comprar uma roupa? Então escolha o melhor tecido, o melhor caimento e, por favor, escolha o número que se ajuste ao seu corpo.
 
Na hora do perfume, gosto não se discute, cada um com o seu, mas, por favor, não exagere, perfume é complemento, não é banho.
 
Vai prestar um concurso? Então primeiro estude, depois faça promessa, porque eu te garanto, nenhum “santo” ,“vai descer” em você para fazer a sua prova.
 
Todo mundo quer o melhor da vida! Mas, poucos sabem o que é “o melhor”.
 
Nos pedidos que fazem aos céus são infantis, acham que voltar com tal pessoa é o máximo, quando poderiam pedir para conhecer alguém que realmente valha a pena.
 
Muitos “bacharéis” estão tentando uma vaga de gari na prefeitura do Rio, tentando roubar a oportunidade de quem precisa ser “gari”.
 
E pode apostar, “vai chover” promessa para passar no concurso. 
 
Gente desistindo da luta no meio do caminho, gente topando “qualquer coisa” para “ser feliz”, dando dízimo da aposentadoria da mãe, comprando fitinha benzida pelo “sei lá quem” e a auto-estima no chão, derrubada, vazia.
 
É hora de acreditar no seu potencial!
 
É hora de pedir caviar aos céus, acreditando que você merece o melhor.
 
É hora de deixar o vale da lamentação, dos gemidos, das doenças imaginárias e virar o jogo. CHEGA!
 
Chega de sofrer até pelo que não existe!
 
Só você, criatura divina, pode mudar o seu jogo.
 
Não tem pastor, santo, anjo, padre abençoado, nem fita mágica que dê um jeito em quem não quer ter jeito!
 
Faça a sua parte, desperte, lute!
 
Caiu? Levante!
 
Escorregou? Apoie-se!
 
Errou? Peça perdão e recomece.
 
Chorou? Limpe o rosto e prossiga!
 
Doeu? Assopre e siga!
 
Tá sem rumo? Compre um guia.
 
Amou? Que bom! Aprendeu o valor do amor.
 
Não deu certo? Comece de novo.
 
É este o dia certo, para a pessoa certa, na hora certa: você é a pessoa certa, na hora certa, no dia certo. O resto é confusão mental.
 
Por favor, queira ser feliz e lute por esse direito, a vitória só depende de você, não aceite migalhas!
 
(Texto de Paulo Roberto Gaefke)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Adulto pra que?

Estava lendo uma crônica da Martha Medeiros chamada Delicadeza e me atentei para uma frase: “Tudo o que não for ‘adulto’ passa à categoria de ridículo.” Tem coisa mais ridícula que esta?

Costumo dizer que vou ficar velhinha, mas com alma de criança, porque não tem nada mais gostoso do que a pureza de alma, do que ser verdadeira sempre, do que uma gargalhada gostosa, do que um mal feito ou uma arte bem feita, e tantas outras coisas típicas de criança. O amor da criança é puro, é claro, não engana ninguém. Se ela gosta, gosta e quer estar perto, cuida. Mas se não gosta, fica de mal e pronto. Assunto resolvido. E mexe com quem ela gosta pra ver! Vai ser travessura na certa, com direito à língua pra fora e um pomposo “bem feito pra você”. 

Amor de adulto é diferente. É polido, frágil, cheio de exigências egoístas, de cobranças. Canso de ver mulheres e homens que falam que amam sem amar verdadeiramente, simplesmente pra cumprir o pro forme social exigido para os casais. Ou ainda casais que têm uma vida íntima extremamente vazia mas que insistem em provar aos outros seu amor atracando-se em abraços e beijos. Sempre me pergunto se essas pessoas sabem o que é o amor e se já conseguiram sentir esse bálsamo verdadeiramente.

A criança sorri alto, gargalhada gostosa, sem se preocupar com o ambiente em que está ou as pessoas presentes. Você nota claramente se agradou uma criança pela intensidade do seu sorriso. Ela não disfarça, não faz de conta. E se notar no seu semblante transparente que ela não gostou, melhor nem perguntar, porque a resposta verdadeira virá com toda certeza.

E quando mentem para uma criança??? Imperdoável! E mico na certa pra quem mentiu, porque criança tem coragem e tem sempre alçada a bandeira da sinceridade. Com toda certeza ela vai tirar a história a limpo, além de avisar aos seus amigos pra tomarem cuidado com aquele mentiroso. Criança também mente, mas geralmente é por defesa própria e nunca pra prejudicar alguém, por maldade.

Tenho a impressão que a criança é um peixe em alto mar. Não um peixe qualquer nem um mar qualquer. Nesse mundo-mar, habitam somente peixes bons, que não usam de nenhuma artimanha natural para comer o outro. Não tripudiam, não enganam, não passam por cima do outro para satisfazer seus caprichos. Respeitam-se mutuamente e se ajudam sempre que podem. E ali eles ficam por muito tempo, vivendo em harmonia.

À medida que vamos crescendo, ficando adultos, nosso mundo vai ficando menor, mais limitado, mais sufocante. Quando nos demos conta, as correntezas marítimas nos trouxeram para a beira da praia. Ali você tem que tomar cuidado com tudo e todos, pois pode ser engolido por outro peixe, ou alguém pode “simplesmente” pisar em você. Até com a água dali você tem que ficar esperto, porque ela pode te jogar a qualquer momento na areia e você, então morrerá seco e sem ar. Ali, o que vale é a lei do mais forte. É o famoso “cada um por si e Deus por todos”.

Esse é o mundo adulto. Cheio de regras, repressões, falsidades, egoísmos, divisão de classes, entre tantos outros elementos. E nesse mundo, aqueles que tanto cumprem as regras e procuram ser o mais correto possível, num momento do dia cheio de trabalho e afazeres em que param para respirar, olham aquela criança e sentem saudade do tempo em que podiam fazer tudo aquilo, sem contravenções.

Mas a estrada da vida é uma via de mão única, onde só há um sentido a caminhar: avante. Não dá pra voltar no tempo e voltar a ser criança. Porém, você pode (e deve sim) conservar dentro de você o seu lado criança, o mais verdadeiro, o mais simples, o mais puro e, com toda certeza, o que te fará mais feliz.