segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Chamado


Tinha acabado de me reunir com meu Sábio Guru e estávamos filosofando sobre a vida, as pessoas e eu, claro. Adoro estar com ele porque ele tem uma sensibilidade enorme e sabe me ler como poucos. Mais: ele sabe como fazer com que eu me perceba, sem que doa, sem que moa, sem que amoe. Pelo contrário, ele abre pra mim uma cortina, que era tão fininha, que acho incompetência minha não tê-la visto antes.

Cheguei à conclusão que meu Sábio tinha que ser vendido em potinhos, pois todo mundo quer sugar um pouquinho dele, do seu bom papo, da sua companhia agradável, saber tudo que ele tem a nos dizer, pois é sempre muito aproveitável.

Falávamos sobre minha mudança de casa. Segundo ele, a casa representa o nosso corpo e que o ato de mudar de casa é uma mudança que acontece dentro de nós. “Mudar de casa é mais importante do que mudar o corpo”, afirmou ele quando eu disse que tinha feito muitas mudanças no meu corpo esse ano. E, de fato, muitas coisas têm mudado dentro de mim: minha percepção das coisas, meus objetivos, minhas aspirações, meus sentimentos... muita coisa.

Estávamos falando também de atração, as coisas que atraímos pela vida e o porquê disso. Começamos a analisar situações e pessoas à minha volta e, juntos, constatamos que a palavra das pessoas que tenho atraído é “comodidade”, o que é exatamente o que me irrita nas pessoas, o que revela nitidamente a minha necessidade de coragem. O raciocínio é assim: pessoas são espelhos e, de uma forma ou de outra, essa repulsa que sinto pelo comodismo alheio das pessoas que tenho atraído pra minha vida, reflete também a minha necessidade de tomar atitudes, sair da zona de conforto. É a parte que menos gosto em mim, no momento.

Estava eu a caminho do aeroporto, dentro do meu carro, o som ligado bem alto, sexta-feira, às nove e tanto da noite. De repente começa a tocar uma música do Cláudio Zoli chamada “Na sombra de uma árvore”, a qual transcrevo abaixo.

“Pois larga de ser boba e vem comigo
Existe um mundo novo e quero lhe mostrar
Que não se aprende em nenhum livro
Basta ter coragem pra se libertar, viver e amar
De que valem as luzes da cidade
Se no meu caminho a luz é natural
Descansar na sombra de uma árvore
Ouvindo pássaros cantar, cantar”

Entre os devaneios do meu pensamento, a parte da música que me chamou atenção para a letra foi “basta ter coragem de se entregar, viver e amar.” E aí a música ficou repetindo e eu tive a sensação de ser um chamado divino.

Passei a vida toda presa a conceitos, preconceitos, tabus, limitações, andando sempre naquela linha reta, sem permitir o mínimo possível de desequilíbrio. Foi a minha criação e não condeno meus pais por isso, pelo contrário, sou eternamente grata porque sei que foi pra me proteger, foi por amor.

O fato é que essa formação nos trava diante da vida, deixa um peso que muitas pessoas nem conseguem suportar e, por isso, deixam de viver e passam a vida procurando pela felicidade, sem entender que a felicidade está aqui, agora, nas suas mãos. Felicidade é esse momento, essa caminhada, essa busca de nós mesmos, esssa gratidão pela vida. Problemas, crises, dificuldades? Claro que existem. E sempre vão existir. A vida seria muito monótona sem eles, além do que, é graças aos obstáculos que podemos mostrar pra nós mesmos o quanto somos capazes de tanto, sempre.

Depois de altas reflexões sobre o meu momento e a minha pessoa com meu Sábio, entro no carro e ouço essa música, me chamando pra vida, pra leveza que ela tem, convidadando pra bem viver, pra ter coragem de se jogar na vida de corpo, alma e coração. Senti como se Deus estivesse me convidando para um mundo novo, sem julgamentos, sem culpas, sem pudores, me dizendo: “Vem, minha filha! Pega na minha mão! Não tenha medo! Você tem o potencial para se afinar com a verdadeira luz, aquela que vem de dentro e que se conecta a algo muito maior. E quando e permitir, você vai experimentar da leveza da vida que eu criei, especialmente pra você!”

Deus fala comigo de diversas formas. Tenho certeza que aquela voz era Ele. Naquela hora comecei a rir sozinha daquele momento, das minhas “doidices” e senti uma paz interior tão grande, tão grande, que é como se eu estivesse mesmo descansando na sombra de uma árvore grande, verde e linda, olhando pro céu azul e ouvindo uma revoada de pássaros cantar.

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