terça-feira, 30 de novembro de 2010

O amor está em alta


Engraçado como sempre me sentia uma estranha no ninho. Já me chamaram de sonhadora, poeta, devaneadora e acho que acabei mesmo vestindo todos esses rótulos. “Quem cala consente!” e, no meu silêncio, aproveitei para pensar na minha essência.

De repente, me vi meio piegas, meio melosa, meio carente, meio apaixonada demais nas pessoas, na natureza, na vida, movida totalmente pelo amor, do que tenho, do que tive e até do que ainda não possuí ou não conheço. No mínimo, estranho pra grande maioria das pessoas.

Acontece que, entre os meus não tem ninguém assim! As pessoas me parecem tão normais e eu totalmente maluca. Completamente doida por amar demais.

Com o tempo, vamos encontrando pessoas que se afinam conosco. Pessoas que, muitas vezes, parecem ser feitos do mais puro amor e que sabem doar, sabem amar de uma forma muito especial. Geralmente são escritores, poetas, músicos, artistas. Os denominados loucos da sociedade.

Não me importo por pertencer a esse grupo, mesmo que minha única arte seja amar. Acho até um privilégio poder com meu tão grande amor, me sentir pequena diante de tantos sentimentos nobres e enormes que encontro pela frente, talvez só possíveis de serem alcançados através da arte.

Amores invencíveis, incansáveis, ilimitados, impossíveis, desejados... lindos! Todos intrínsecos do próprio viver.

Mas confesso que amar dói. Corrijo-me: amar não dói, o que dói é o apego que sentimos, a necessidade de controle do outro, o medo desse amor não ser retribuído, ou se menor que o nosso. Temos medo da fragilidade que nos invade!

Mesmo assim, não deixamos de amar. Por maior que seja o tempo, a distância, a dificuldade, a decepção... amar ainda vale a pena. E está em alta!
Bom, mas como dizia, passando o tempo eu fui me encontrando com meus parceiros do amor, com os amantes da literatura, da poesia, da música. Pessoas que sentem na pele a magia do amor. Gente que alivia suspiros com alegria no rosto, que faz de uma saudade uma lágrima. Seres que se apaixonam por um raio de sol, pelo aroma das flores, pela beleza das cores, como se fossem duendes reais.

Sentimentos se afloram todo o tempo, ora felizes, ora sofridos, mas sempre em nome do amor, em nome de algo que parece muito maior, se é que existe algo que possa ser maior que o amor em sua simplicidade e maestria.

E, embora pareça que é cafona amar, descobri um nicho de pessoas que, assim como eu, amam demais, se entregam demais, sentem com maior intensidade a vida, as pessoas. Elas me alimentam diariamente com suas doses doces de ternura.

Com a ajuda deles, vou conseguindo denominar os tipos de amores: amores amantes, amores sonhados, amizade, saudade, cumplicidade... formas que o amor escolhe se apresentar. Percebendo em mim cada um deles. Entendendo que é algo tão grande, que amamos, mesmo distantes, mesmo deficientes e falhos que somos e é o que dá o sentido que a vida tem que ter.

Talvez eu seja mesmo uma estranha no ninho, porque pertenço a um outro ninho, compartilho de outro tipo de energia, vim de outro tipo de planeta, um planeta que de Terra não tem nada, porque tudo que se quer é ter asas pra voar e chegar até o ser amado.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Um mundo sem palavras


Seria tão bom um mundo em que as pessoas não falassem. As palavras com frequência causam desentendimentos, batebocas. Será que os surdos-mudos brigam? Pense um pouco: você chega numa banca, aponta o jornal, paga, e nenhuma palavra é necessária. Num restaurante, é possível fazer o pedido apenas apontando para o cardápio – seja para as comidas, seja para as bebidas –, e, se for uma cerveja, basta levantar o polegar e a loirinha virá estupidamente gelada.

Os filmes seriam todos mudos, como já foram, e todos entenderiam tudo, como já entenderam, pois um olhar é suficiente para mostrar qualquer emoção.

Começando pelo elementar: é possível distinguir, pelo olhar, um sim de um não, seja na hora de procurar um trabalho, seja na hora de cortejar uma mulher. Por acaso, é preciso algum som, alguma palavra, para um homem perceber quanto ela está encantada com a presença dele ou quanto gostaria que ele sumisse do mapa? Um olhar pode ser mais eloquente do que um Aurélio inteiro. Para ser generosa, é preciso falar? Para mostrar que se tem carinho, ódio, autoridade, rigor, bom humor, honestidade, é preciso pronunciar uma palavra que seja? É preciso mais do que um olhar para saber se alguém é sério ou malandro?

Sons, sim, mas só os musicais. Os passarinhos poderiam continuar cantando, o barulho do vento seria sempre bem-vindo e as ondas do mar quebrando na praia continuariam fascinando todos. Os estrondos das trovoadas também poderiam acontecer – às vezes – para rapidamente deitarmos a cabeça no ombro do homem amado, pensando que ali o raio não iria, nunca, nos atingir. Tudo isso sem que uma só palavra fosse dita – e precisa? Palavras, sim, mas só as escritas.

Crianças são bem mais espertas do que se imagina; quando elas não gostam de alguém, geralmente têm suas razões, sem que esse alguém as tenha insultado com palavras. É só no olho – elas entendem das coisas. Uma mulher sabe perfeitamente com que intenções um homem a encara e sabe também responder à altura: dá o sinal verde – ou o vermelho – sem precisar emitir um único som. Aliás, algumas são muito mais sensíveis a um olhar do que às conversas; a essas elas já estão acostumadas, e nelas não devem acreditar. Existe também o pior de todos os olhares: aquele frio, desinteressado, indiferente. Quando você suspeita que alguém está mentindo, a primeira coisa que diz é: “Quero ver você dizer isso olhando nos meus olhos”. Dificilmente alguém consegue sustentar uma mentira com os olhos; só a atriz Meryl Streep, talvez.

Um mundo silencioso, em que as pessoas se entendessem apenas pelo olhar, seria mais verdadeiro, mas talvez impossível, já que as palavras foram inventadas com uma única finalidade: esconder os pensamentos. Por mais ingênua que seja uma mulher, ela sempre intercepta o olhar de desejo do seu homem por outra mulher, mesmo que ele dure uma fração de segundo, às vezes antes de ele mesmo perceber. E, quando isso acontece e ela demonstra ciúmes, é chamada de louca.

(Texto de Danuza Leão)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Um jeito de prece


Com gentileza, abrando os meus ruídos. Diminuo o volume da tagarelice exaustiva dos pensamentos. Permito que a minha respiração se acalme até ficar macia. Sinto o meu coração com o contentamento de quem reencontra um amigo muito querido. Começo a visualizar um lugar bem bonito. Desenho nele árvores e plantas, utilizando diferentes combinações de cores e tamanhos para suas folhas, flores e frutos. Desenho rios, lagos, cachoeiras, e também montanhas e pedras de vários tons e formatos. Pinto o céu com o azul mais vivo que pulsa na minha memória e solto nele pássaros das mais variadas espécies.

Desenho uma bola dourada que vibra, imensa, dentro desse azul. Tão vívida, que só por desenhá-la o meu corpo estremece, num arrepio de ternura, pela energia que ela emana. Levo para esse lugar os animais dos quais consigo lembrar e os espalho em todos os cantos, livres e felizes. Retiro de uma caixa cheia de delicadezas o pote que contém a mistura dos sons e perfumes que se harmonizam, em frequência, com o que eu já criei. Abro a tampa do pote, jogo essa mistura mágica no ar e acendo tudo com os acordes e o cheiro da paz.

Entro nesse lugar. Caminho sem pressa e paro onde o meu coração me pede. Olho. Ouço. Sinto. Existe nele uma calma muito semelhante àquela que experimentei nos momentos de puro amor que já vivi. Há um sorriso sereno em meu rosto que se espalha em ondas por dentro, até que, de repente, eu me transformo nele: não sei mais onde ele acaba nem onde eu começo. Com os meus pés tocando, firmes, o chão, sinto o toque da brisa que acaricia meus cabelos. O calor do sol que pousa suavemente na minha pele e acende, acorda, colore tudo. Sinto que sou livre, saudável e harmônica, como cada pequeno detalhe que vibra ao meu redor. Sinto-me irmanada com cada um deles. É como se cada detalhe estivesse dentro de mim e eu estivesse dentro de cada um. Não há nada separado de nada. Há uma única e generosa pulsação de vida.

Reparo que há um grupo de pessoas vindo na minha direção. Há uma luz que canta em cada uma delas. Elas me amam e eu amo cada uma. Olho para mim e percebo que aquela luz também me envolve. Estamos ligadas por fios sutis desse lume. Elas chegam ao lugar onde me encontro. Uma delas se aproxima e para diante de mim, perto, muito perto. Olho atentamente para ela, meus olhos conseguem tocá-la sem nenhuma pressa. Respiramos o mesmo sentimento. Sinto o perfume singular que ela tem. Pronuncio o seu nome com toda ternura de que sou capaz. Agradeço à vida pelo nosso (re)encontro. Agradeço pelo o que ela me ensina sobre o amor. Declaro a minha intenção de continuar a compartilhar com ela essa jornada evolutiva. Depois, trocamos um abraço caloroso. É a vida que vibra em mim que abraça, nesse momento, a vida que vibra nela. Sinto esse abraço e deixo que ele fale no nosso silêncio. Afasto-me gentilmente, abençoando essa vida da forma que sei. Ela também abençoa a minha vida da forma que sabe e se afasta. Olho, então, para a pessoa que está atrás dela, à espera de um novo abraço. Repito o movimento. E também com a outra. E com a outra. E com a outra.

Depois de abraçar cada uma, espontaneamente começamos a brincar de roda. Uma maneira lúdica de lembrar que somos feitos, sobretudo, para a alegria. De mãos dadas, começamos a girar leve e gostoso nessa roda de amor. Parece até que flutuamos e sabe de uma coisa? De alguma forma, flutuamos mesmo. Essa alegria que compartilhamos é tão pura que desejamos estendê-la a outros seres. Ao mundo. Devolvê-la à vida. Envolvidos nessa atmosfera, experimentamos com mais facilidade a certeza de que dar e receber é a mesma coisa. Que é impossível que se consiga separar um movimento do outro quando eles passam pela festa que o coração celebra.

Sem que ninguém diga nada, paramos de girar e concentramos toda a atenção nessa luz que começa em cada um. Ela aumenta progressivamente, tamanho e intensidade. Centrados no coração, visualizamos esse perfume amoroso tocando todos os amados que já trocaram de frasco e não estão visíveis nessa roda. Tocando todos aqueles que ainda não vivem a graça de experimentar o amor. Tocando todos os que estão doentes, seja lá onde a doença os machuque. Tocando os que se sentem assustados, amargurados, solitários, descrentes e cansados, e que têm disfarçado a sua dor através dos vícios, das agressões, da apatia, de uma vida sem compromisso genuíno. Tocando os que sentem fome de pão ou de clareza. Os que sentem sede de água ou de vida. Os que sentem frio de agasalho ou de afeto. Os que estão envolvidos nos conflitos que matam tanta gente, seja lá por qual desculpa da ignorância.

Enviamos também esse perfume para todos aqueles que, de alguma maneira, acreditaram que foram feridos por nós, com ou sem razão. Para todos aqueles que acreditamos que nos feriram também. Para cada vida que está presa na culpa ou na falta de perdão. Para todos aqueles que, de variadas maneiras, ajudam a manter acesa a luz na Terra, nesse nosso tempo tão escuro. Enviamos esse perfume para todos os lugares que o seu toque alcança, até lá nos mais distantes e inimagináveis.

Desfeita a roda, nós nos despedimos. Cada um, abençoado e nutrido por esse instante de amor compartilhado, retorna para o seu próprio caminho. Antes de ir embora, olho mais uma vez para esse lugar que criei, para onde posso retornar sempre que quiser. Para descansar dos desafios cotidianos. Para me perfumar com essa paz. Para me banhar com essa luz. Podemos escolher o que queremos criar. Onde demoramos mais os nossos olhos. Com o que alimentamos o nosso coração. O que propagamos sutilmente no mundo.

Ver com amor também é um jeito de prece.

(Texto de Ana Jácomo)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dar ou fazer amor?


Dar não é fazer amor. Dar é dar.
Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido.
Mas dar é bom pra cacete!
Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca...
Te chama de nomes que eu não escreveria...
Não te vira com delicadeza...
Não sente vergonha de ritmos animais.
Dar é bom.
Melhor do que dar, só dar por dar.
Dar sem querer casar....
Sem querer apresentar pra mãe...
Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo.
Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral...
Te amolece o gingado...
Te molha o instinto.
Dar porque a vida é estressante e dar relaxa.
Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã.
Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito.
Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.
Dar é bom, na hora.
Durante um mês.
Para os mais desavisados, talvez anos.
Mas dar é dar demais e ficar vazio.
Dar é não ganhar.
É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro.
É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir.
É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço d e Ano Novo e pra falar:
'Que que cê acha amor?'.
É não ter companhia garantida para viajar.
É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.
Dar é não querer dormir encaixadinho...
É não ter alguém para ouvir seus dengos...
Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito.
Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor.
Esse sim é o maior tesão, relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar.
Experimente ser amado... '

(Texto de Luiz Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os nobres sentimentos


Desde a mais tenra infância, fomos ensinados a refrear certos sentimentos. Era feio ter inveja, raiva, ódio, e por aí vai. Mas será mesmo? E quem é a santa que só tem no coração bondades e caridades? Querendo ou não, os sentimentos – bons e maus – surgem, mas nos ensinaram que os piores devem ser afastados em nome já esqueci de quê. E como fingir que eles não existem, como ignorar o que está dentro do peito? Que tal tentar conviver com eles reconhecendo que somos apenas pessoas normais, para o mal e para o bem?

Digamos que sua grande amiga seja maravilhosa, tenha 10 centímetros a mais do que você e 10 quilos a menos. Além disso, é charmosa, inteligente, simpática e generosa – o que, aliás, não é nenhuma vantagem, com tantas qualidades – e consegue seduzir, sem fazer o menor esforço, homens, mulheres e crianças. Que raiva, que inveja. Fazer o quê? Em primeiro lugar, reconhecer o que está sentindo e as razões desses sentimentos. Não será preciso ir longe a ponto de dizer: “Eu te odeio porque você é mais bonita do que eu”. Mas, quando estiver sozinha, pode ficar com toda a raiva do mundo e odiá-la com todas as forças do seu coração – para aliviar o peito e não ter um infarto; isso ajuda a passar. E, quando adorar uma pessoa, deve também ir fundo e dizer que gosta sem nenhum pudor, pois gostar e fingir indiferença não tem a menor graça.

Já reparou como, para certas pessoas, é difícil elogiar? Quem escolher viver honestamente todos os seus sentimentos ai perder alguns amigos, mas, em compensação, os que ficarem vão ser para sempre. De que adianta o telefone tocar o dia inteiro se é preciso fingir que é indiferente para ser querida, para ter com quem ir à praia?

Quando tiver vontade de torcer o pescoço de seu filho adorado – porque isso às vezes acontece –, permita-se reconhecer e, se puder, diga a alguém – uma amiga, o padre ou o analista – quanto gostaria, naquele momento, de esganar a carne da sua carne e o sangue do seu sangue. Depois que a raiva passar, diga a ele, que vai achar muita graça. Assim, você estará abrindo para ele a possibilidade de lhe dizer um dia a mesma coisa, o que vai ser maravilhoso para a amizade de vocês. Porque entre mãe e filho, além do amor, se tiver também amizade, é a melhor coisa do mundo. E convém que ele saiba que, quanto mais próximas as pessoas, mais ocasiões e razões temos para amá-las ou odiá-las, e que isso é normal (e não deve trazer culpas).

Como é bom falar mal de uma pessoa, dizer com carinho que ela não vale nada e terminar confessando que é exatamente por isso que é louca por ela. Quando se ouve uma declaração de amizade dessas, nunca mais se esquece, e ser especial para alguém é tudo que se quer.

E mais: sofrer, chorar, rir, abraçar, beijar, passar noites em claro, de tanta felicidade ou de tanto sofrimento, acordar um dia achando que o mundo é todo seu e no outro não conseguir nem se levantar da cama de tanta tristeza sem nenhum motivo – é isso que diferencia uma vida plena e rica de outra morna e medíocre.

Dinheiro se economiza, mas emoções, sejam de felicidade ou de tristeza, de amor ou de raiva, nunca. Vá sempre fundo – a não ser que você esteja na vida a passeio, o que é uma escolha; uma triste escolha, aliás. Porque todos os sentimentos são nobres – inclusive os piores.

(Texto de Danuza Leão)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Com o coração


Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.

Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.

Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.

Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.

Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.

Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.

Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e ninguém levou a sério.

Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.

Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.

E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

(Texto de Ana Jácomo)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um pé no passado


Para quem começou a vida muito cedo e continua curiosa e interessada nos caminhos do mundo, as coisas às vezes ficam complicadas. É como ter um pé fincado no presente mas também um outro lá atrás, no passado; viver assim é, no mínimo, perturbador.

Esse pé no passado é nossa memória, que não nos deixa esquecer como eram nossos pais, como eles viviam, o comportamento que esperavam dos filhos – e das filhas, sobretudo. Todo mundo finge que acha tudo muito natural, mas os costumes estão mudando rápido, rápido demais, e a gente se assusta.

Com o pé no passado, lembro de coisas que não dá para acreditar: do tempo em que as desquitadas eram malvistas; do amigo que se matou porque descobriram que era gay; das duas mocinhas que frequentavam a mesma praia e eram famosas por serem as únicas não virgens do pedaço; da grande ousadia que era uma moça trabalhar quando seu destino já estava traçado: estudar francês e piano e casar; das mulheres que escondiam que pintavam os cabelos. Faz tanto tempo assim? Ok, foi no século passado, mas ainda lembro bem. Lembro até de ter ouvido falar que havia médicos especialistas em reconstituir a virgindade para que as meninas pudessem se casar vestidas de branco – dá para acreditar?

Meu pai me proibia de entrar no carro de qualquer rapaz. É claro que eu desobedecia e entrava, mas, quando passava pelos pontos mais estratégicos, abaixava para não me arriscar a ser vista.

As intimidades com os namorados eram levíssimas, e ficar de mãos dadas no cinema era quase um compromisso. O primeiro beijo na boca era contado com emoção à melhor amiga, e detalhe: era um beijo casto. Se algum garoto tentava passar a mão nos seios, e eles tentavam sempre (no cinema, sessão das 8), era considerado grave. Grave, não: gravíssimo. Hoje, quando vejo as campanhas na televisão incentivando o uso da camisinha no Carnaval, fico grilada e acho que virei careta – vai ver, virei. Será que virei conservadora quando acho (mas não digo) que o mundo está perdido? Não, não é o mundo que está perdido. Sou eu que estou perdida. Mas lembro e tenho certeza: era diferente. Beber, fumar, experimentar maconha, dormir com um homem, chegar em casa com o sol nascendo era um posicionamento diante da vida. Não dá para negar que era divertido, mas era mais que tudo um posicionamento – e sempre muito intenso.

As mesmas coisas são feitas hoje – sexo, principalmente –, mas de maneira banal. É tão simples levar o namorado para dormir no quarto, sob as bênçãos da família, que não pode ter muita graça. Alguma coisa fácil tem graça? Convenhamos: existe algo menos afrodisíaco do que ter que lembrar da camisinha?

Já vai longe o tempo em que ir para a cama com um homem era uma decisão importante, e havia sempre uma razão forte – mesmo fantasiada – para isso. Às vezes se fazia uma certa confusão entre atração física, amor e ideologia, mas assim era o mundo.

Foram muitos os doces erros da juventude, todos perfeitamente perdoáveis; afinal, quando se é jovem demais, não se pode saber tudo. Ainda bem.

(Texto de Danuza Leão)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Esse mistério


Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente se encante tanto por outra vida...

E sinta vontade de escrever poemas. Garimpar estrelas. Deixar florir pelo corpo os sorrisos que nascem no coração.

Nesse mistério que nos faz olhar a mesma imagem inúmeras vezes, sem cansaço, seja ela feita de papel ou de memória. Que nos faz respirar feliz que nem folha orvalhada. Querer caber, com frequência, no mesmo metro quadrado onde a tal vida está. Cantarolar pela rua aquela canção que a gente não tinha a mínima ideia de que lembrava.

Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente encontre essa vida na multidão planetária de bilhões de outras. E sem saber que ela existia, perceba ao encontrá-la que sentia saudade dela antes de conhecê-la.

Estive pensando nesse mistério que faz com que aquela vida que acaba de encontrar a nossa nos deixe com a impressão de estar no nosso caminho desde sempre, como se fosse um sol que esteve o tempo todo ali e a gente somente não o ouvia cantar.

Nesse mistério que nos faz trocar buquês dos olhares mais cuidadosos. Que nos faz querer cultivar jardins, lado a lado. Nesse mistério que faz com que a nossa vida queira um bem tão grande à outra vida, que vai ver que isso já é uma prece e a gente nem desconfia.

Estive pensando nesse mistério lindo que você é para alguém e alguém é para você ou que ainda serão um para o outro. Nessa oportunidade preciosa dos encontros que nos fazem crescer no amor com o tempero bom da ludicidade. Nesse clima de passeio noturno em pracinha de cidade pequena. Nessa paz que convida o coração pra recostar e repousar cansaços. Nesse lume capaz de clarear um quarteirão inteirinho da alma. Nesse abraço com braços que começam dentro da gente. Nessa vontade de deixar o mundo todo pra depois só para saborear cada milímetro do momento embrulhado pra presente.

Estive pensando nesse mistério que não consigo desvendar. Nem tento.

(Texto de Ana Jácomo)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Na própria pele


Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável, mesmo convivendo com tantas perguntas que o tempo não respondeu e com a ausência de qualquer garantia de que ele ainda responda. É me sentir confortável, mesmo entendendo que as respostas que tenho mudarão, como tantas já mudaram, e que também mudarei, como eu tanto já mudei.

Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável, mesmo sentindo que cada vez mais eu sei cada vez menos, e não saber, ao contrário do que já acreditei, pode nos fazer vislumbrar uma liberdade incrível, às vezes. Tem saber que é nítida sabedoria, que fortalece, que faz clarear, mas tem saber que é apenas controle disfarçado, artifício do medo, armadilha da dona autosabotagem.

Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável, mesmo percebendo que a minha vida não tem lá tanta semelhança com o enredo que eu imaginei para ela na maior parte da jornada e que nem por isso é menos preciosa. É me sentir confortável, cabendo sem esforço e com a fluidez que eu souber, na única história que me é disponível, que é feita de capítulos inéditos, e que não está concluída: esta que me foi ofertada e que, da forma que sei e não sei, eu vivo.

Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável, mesmo acessando, vez ou outra, lugares da memória que eu adoraria inacessíveis, tristezas que não cicatrizaram, padrões que eu ainda não soube transformar, embora continue me empenhando para conseguir. É me sentir confortável, mesmo sentindo uma saudade imensa de uma pátria, aparentemente utópica, onde os seus cidadãos tenham ternura, respeito e bondade, suficientes, para ajudar uns aos outros na tecelagem da paz e no desenho do caminho.

Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. Estarmos na nossa própria pele não é fácil e essa percepção é capaz de nos humanizar o bastante para nos aproximarmos com o coração do entendimento do quanto também não seria fácil estarmos na pele de nenhum outro. Por maiores que sejam as diferenças, as singularidades de enredo, as particularidades de cenário, não nos enganemos: toda gente é bem parecida com toda gente. Toda gente é promessa de florescimento, anseia por amor, costuma ter um medo absurdo e se atrapalhar à beça nessa vida sem ensaio.

Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável o suficiente para cada vez mais encarar os desconfortos todos fugindo cada vez menos, sabendo que algumas coisas simplesmente são como são, e que eu não tenho nenhuma espécie de controle com relação ao que acontecerá comigo no tempo do parágrafo seguinte, da frase seguinte, da palavra seguinte. É me sentir confortável o suficiente para caminhar pela vida com um olhar que não envelhece, por mais que eu envelheça, e um coração corajoso, carregado de brotos de amor.

(Texto de Ana Jácomo)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Supresas dadivosas


Abençoadas sejam as surpresas risonhas do caminho.
As belezas que se mostram sem fazer suspense.
As afeições compartilhadas sem esforço.
As vezes em que a vida nos tira pra dançar sem nos dar tempo de recusar o convite.
As maravilhas todas da natureza, sempre surpreendentes, à espera da nossa entrega apreciativa.
A compreensão que floresce, clara e mansa, quando os olhos que veem são da bondade.
Abençoados sejam os presentes fáceis de serem abertos.
Os encantos que desnudam o erotismo da alma.
Os momentos felizes que passam longe das catracas da expectativa.
Os improvisos bons que desmancham o penteado arrumadinho dos roteiros da gente.
Os diálogos que acontecem no idioma pátrio do coração.
Abençoada seja a leveza, meu Deus.
Abençoadas sejam as dádivas generosas que vêm nos lembrar que viver pode ser mais fácil.
Que amar e ser amado pode ser mais fluido.
Que dá pra girar o dia.
Que dá pra sair da frequência da escassez e sintonizar a estação da disponibilidade, onde alegrias já cantam, mas a gente não ouve.
Abençoadas sejam as dádivas que vêm nos lembrar, com alívio, que há lugares de descanso para os nossos cansaços.
Que há lugares de afrouxamento para os nossos apertos.
Que dá pra mudar o foco.
Que não é tão complicado assim saborear a graça possível que mora em cada instante.
Abençoadas sejam as dádivas generosas que nos surpreendem.
Elas não sabem o quanto às vezes, tantas vezes, nos salvam de nós mesmos.

(Texto de Ana Jácomo)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Se eu fosse outra


Que as mulheres adoram inventar moda todo mundo sabe. O que nem todos percebem é a nossa imensa capacidade de nos reinventarmos. Afinal, o que é isso?

Em primeiro lugar, parar de dizer: “Eu sou assim e pronto”. Pois as mulheres não param jamais de se aprontar. Mas, para arriscar tantas transformações, precisamos de inspiração. O que, claro, não nos falta. Um filme nos faz querer ser igual à atriz – sexy, passionária, criadora; um livro nos leva a pensar que o amor é a coisa mais importante do mundo; outro, exatamente o oposto: que o ser humano deve almejar a liberdade, correr o mundo atrás de emocionantes aventuras, para isso nascemos. Seja qual for o caminho seguido, um dia você vai acordar pensando em como seria sua vida se tivesse feito tudo ao contrário.

Para mim, numa tarde chuvosa, é tentador imaginar se eu teria sido mais feliz se tivesse feito uma faculdade, casado com um milionário ou aberto um restaurante japonês. Só que nunca vou ter a resposta, e é nessa hora que vem a vontade de me reinventar.

Quando isso acontecer com você, antes de colocar seu apartamento à venda, faça uma boa arrumação na casa. Fora com todos aqueles potinhos de creme jamais abertos, os hidratantes comprados na penúltima reinvenção, os nécessaires ganhos das companhias de aviação – escova, pasta, máscara e uma calçadeira que jamais será usada.

Depois, à cozinha. Adeus às panelas enormes do tempo de outra reinvenção, quando achou que ia dar muitos jantares e até andou tomando aulas de culinária. Os montes de pratos, o faqueiro para 24 pessoas, os copos para uísque, as taças de vinho, as flûtes de champanhe e os modelos especiais, comprados em Nova York, para dry martini (só dois), todos serão embalados para dar aos filhos – se eles quiserem, o que, aliás, não é garantido.

E aí finalmente passamos ao mais difícil: as roupas e os acessórios. Cada um é símbolo de uma fase: dos mocassins de couro natural às sandálias de strass salto 10; de um chanel básico a um vestido bordado decotadíssimo, cada peça corresponde a uma de suas personas.

Acabo ficando com tudo (e o armário crescendo). Mas qual mulher de juízo se desfaz das peças que foram testemunhas de seus momentos marcantes? E se a moda voltar? Não, dos vestidos não me desfaço por nada.

Então, no lugar de ficar eternamente tentando se encontrar, seja feliz sabendo que dentro de você existem todas as mulheres do mundo. Não é melhor do que ser uma só?

Na vida, sempre surgem oportunidades de mudança, e aí temos de fazer algumas escolhas. Como se diz no Sul, quando o cavalo passar na sua porta, é preciso montá-lo para nunca pensar que teve a chance mas não viu porque estava distraída.

Ficamos como estamos ou tentamos mais uma vez virar tudo pelo avesso?

Esse é o problema, mas quem nasce com um coração aventureiro pode trocar de casa, de marido, de cidade, de país sem nunca encontrar a tal da paz. E vai passar a vida inventando e se reinventando, o que também é uma maneira de viver bem interessante.

(Texto de Danuza Leão)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Amor de bicho


Desde o dia em que um gatinho entrou na minha vida, só tive felicidades.

Uma amiga me explicou que a escolha de meu futuro companheiro deveria ser determinada não pela aparência física, mas pela compatibilidade; afinal, estamos falando de um parceiro afetuoso com quem se pretende partilhar o resto da vida. Haroldo é tigrado, não faz parte de nenhuma raça nobre, e nós nos adoramos. Fui aprendendo a entender esse amor desmesurado.

Nós todos precisamos de carinho; e não só receber como dar. Mas aquela liberdade de abraçar, beijar cada dedinho do pé, o cangote, olhar nos olhos e dizer “eu te adoro, você é minha paixão” só se pode ter com os bebês.

Depois, as crianças maiores vão ficando arredias e, por mais que um filho adolescente nos ame, dificilmente vai se aconchegar nos nossos braços para ver um filme na TV ou ficar quietinho enquanto a gente lê um livro ou fala bobagens fazendo um cafuné ou brincando com os pelinhos do seu braço. Quanto mais ele cresce, pior é.

Dizem os conhecedores da espécie humana que esse afastamento faz parte do início da sexualidade, mas penso que tem a ver também com nossa cultura, que é tirana: adultos só podem se derreter com crianças muito pequenas.

A partir do momento em que o filho começa a crescer, os pais, pensando na disciplina e no respeito, perdem a espontaneidade e a liberdade de botá-lo no colo e dizer, despudoradamente, quanto o amam. Um certo distanciamento físico passa a permear as relações, e, quando a gente quer segurar as crianças, elas fogem.

Não existe maior comunicação entre as pessoas do que o contato físico. Só assim podemos sentir ou expressar, de verdade, a dor, a amizade, a paixão. Há quem diga que nós precisamos dar (e receber) quatro abraços por dia; aquele abraço bom, apertado, caloroso, não necessariamente de amor.

Quantos você deu hoje? Pior: quanto tempo faz que você não dá e não recebe nenhum?

Os adultos apaixonados também não se sentem livres para ficar tocando o ser amado, passando a mão na perna ou brincando com a pontinha da orelha. Talvez para não demonstrar demais seu afeto, talvez porque o outro não goste dessa intimidade, o fato é que a aproximação física só começa, praticamente, na pré-cama. Quem hoje ficaria brincando durante horas, de leve, com a mão do namorado? E o medo de ele achar que a parada está ganha? E o receio de se mostrar apaixonada?

É por essa necessidade de dar e receber carinho que muitas pessoas elegem um gatinho: para poder coçar a cabeça e a barriguinha dele e dizer várias vezes “eu te amo de paixão” sem se achar ridículas – quando não há ninguém por perto, claro. Os gatos são tudo o que se pode querer, mas bem abusados: costumam usar nossa mão como travesseiro e ficam dormindo de pernas para o ar, enquanto nós, babacas apaixonadas, não nos movemos para não perturbar o sono deles. E muito folgados: se estiverem brincando e a gente chamar, não estão nem aí (mas a gente os ama assim mesmo).

O escultor Giacometti (Alberto Giacometti, suíço) disse uma vez que entre salvar a vida de um só gato ou todas as obras de arte do mundo inteiro, ele salvaria a vida do gato. Eu espero nunca ter que fazer essa opção.


(Texto de Danuza Leão)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os cheiros



Existem cheiros inesquecíveis. Cada pessoa tem seus prediletos. E basta uma mínima lembrança para que tudo volte: a temperatura do momento, a felicidade ou a tristeza que se sentia, as imagens de quem estava perto, tudo. Tudo. Cheiros podem ser alegres ou tristes.

Era muito bom quando se entrava em casa depois do colégio, logo antes do almoço, e se sentia o cheiro do refogado – alho, cebola e tomate – para fazer o picadinho ou o bife de panela enrolado no bacon e preso por um palitinho. Quantos segundos você leva para atravessar o tempo e voltar aos seus 11 anos?

Lembra quando há muitos, muitos anos, você ia passar as férias na fazenda? Ah, uma fazenda tem aromas absolutamente inesquecíveis: o do capim, o da terra depois da chuva, o do estábulo onde se ia de manhã bem cedo tomar o leite tirado da vaca, ainda morno, numa canequinha de alumínio. E o cheiro da tangerina? Aliás, tangerina não, mexerica; aquela pobrinha, modesta, de casca fina, que deixava a mão cheirando durante três dias. Esse é um cheiro muito alegre.

O cheiro do bolo saindo do forno é para sempre – bolo de tabuleiro, cortado em losangos, com cobertura de açúcar com limão, e um detalhe precioso: naquele tempo, por mais que se comesse não se engordava, e em cima da mesa havia sempre um vidro de fortificante para abrir o apetite. Que felicidade ter tido uma infância no interior!

Mas existem outros aromas não ligados ao paladar e também inesquecíveis. O cheiro do mar quando se chega em Salvador – uma licença poética, com licença.

E você já teve uma tia-avó que morava numa casa bem arrumada, cujo assoalho era encerado toda semana? O brilho era dado a mão, com uma escova de cabo alto como uma vassoura, e era chegar e ouvir: “Cuidado para não escorregar”. Que cheiro limpo, honesto, que cheiro de gente direita. Será que isso ainda existe?

Mas há também os cheiros angustiantes: os de hospital, de sala de cirurgia. Muito cheiro de flor você sabe o que lembra – melhor não falar disso. E existem os perfumes ricos: de carro novo, de um bom fumo de cachimbo. E vamos combinar: cheiro de alho é bom na cozinha, de sexo no quarto, e é proibido misturar. Por falar nisso, o cheiro do homem que se ama, depois do amor, é melhor nem lembrar para não desmaiar de saudade.

As cidades também têm seu cheiro, cada uma muito particular: se você for levada, de olhos vendados, para o Bloomingdale’s, sabe na hora que está em Nova York. E se respirar um aroma de cominho misturado a curry e a canela vai saber que está no souk de Marrakesh.

Mas existe um cheiro que só as mulheres conhecem. É o que elas sentem quando estão enxugando seus bebês depois do banho. É preciso que não haja uma só pessoa por perto num raio de 200 metros para não haver interferência de qualquer ordem. Sem nenhuma presença estranha – nem mesmo a do pai –, mãe e filho poderão dizer bobagens e rir de coisas que só eles vão entender. Depois do talco, a mãe vai botar o nariz no pescoço de sua cria e cheirar com todos os seus cinco sentidos. No princípio timidamente, mas cada vez mais forte, até quase arrebentar os pulmões de tanto amor. Na hora a gente não sabe, mas um dia vai saber: não existe nada igual a esse cheiro nem a esse momento, e nunca vai haver um melhor. Porque esse é o cheiro da vida.

(Texto de Danuza Leão)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Beleza


“Beleza se põe à mesa” – é o que sempre ouvi desde que era pequena. Você precisava ser bela para arrumar um bom emprego, um bom marido ou até mesmo emitir uma opinião numa roda e ser ouvida.

Esse é um dos chavões da nossa sociedade mais mentirosos e mais cruéis. Quer dizer, então, que as feias estão fadadas ao fracasso total em todas as áreas da vida? Que nada! Eu conheço mulheres feias que são inteligentíssimas, excelentes profissionais, bom papo, gente do bem e tem muitas outras qualidades. Aí, ainda aparecem alguns sádicos de plantão que ainda completam: “já que não são bonitas, têm que, pelo menos, saber fazer alguma coisa!”

O resultado de tudo isso é um bando de mulheres belas e infelizes, sempre à procura do melhor corpo, do cabelo mais bonito, do corpo mais escultural, da roupa mais chamativa. Só se sentem completas se tem alguém para cultuarem sua beleza. Mas, como a madrasta da Branca de Neve, vive o eterno dilema: “Existe alguém mais bonita do que eu?”

E quando são realmente bonitas por fora, têm dificuldade de mostrar qualquer outro potencial, qualquer beleza interna. A inteligência fica descortinada por trás da beleza. Diante disso, precisam cuidar muito do que está à mostra, pois é a forma que encontraram de serem reconhecidas, seja lá como for.

Enquanto isso, o mercado da moda e da estética crescem assustadoramente, numa velocidade absurda e o que vemos é uma inversão de valores, o aumento do consumismo e a diminuição de virtudes.

Nunca imaginei que a aparência fosse algo tão forte na nossa sociedade. Depois de arrumar meu corpo, estragado por 55 quilos acima do meu peso atual, fico encabulada com a reação das pessoas quando me vêem. É como se eu tivesse me tornado uma pessoa melhor, quando o que mudou foi só o externo, pois o interno continua nublado e em constante transformação. Continuo em busca de mim mesma, cheia de defeitos a serem melhorados.

O que me deixa intrigada é que sempre me disseram que sou bonita, apesar de não concordar. Sei que não sou feia, mas bonita também nunca me considerei. O que acontece agora é que em meio a pessoas que não me conhecem, me sinto como um pedaço de filé (grande, gostoso, suculento e bem temperado) andando no meio de uma platéia de cachorros famintos. Confesso que essa não é uma boa sensação. Não pra mim!

E olha que emagreci há 10 anos, mas só agora fiz minhas cirurgias. Quando eu dizia que ia fazer as pessoas diziam: “Pra que? Você está ótima!” Fico pensando mesmo se as pessoas não tinham razão, pois estava bem de forma que não chamasse tanta atenção. Meu apelido de Nega, passou a ser Barbie. Eu corrigi dizendo que então é Barbie Emília, porque estou cheia de costuras pra todos os lados.

O que é, então, bonito? O externo apenas. É isso que as pessoas colocam à mesa, é isso que é importante para as pessoas. Essas conclusões só reafirmam o que eu já conclui: as pessoas mais certas e coerentes aos olhos da sociedade são as mais vazias e mais insanas aos meu olhos.

Eu acho sim que beleza se põe à mesa, mas aquela que vem de dentro, que você percebe no sorriso, no olhar da pessoa. Belo pra mim são aquelas pessoas que iluminam tudo ao seu redor por onde passam, com seu astral, com sua benevolência, com sua atitude bacana, com o cuidado e atenção ao próximo.

Eu, como tantas, quero sim ser uma mulher bonita. Só espero que minha beleza não seja medida pelo tamanho do meu bumbum ou curvas da silhueta e sim por algo maior que vem de dentro e que realmente possa fazer alguma diferença na vida de quem eu atravesse o caminho.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Afinal, o que querem as mulheres?


Na próxima quinta-feira, a Rede Globo vai lançar uma nova série chamada “Afinal, o que querem as mulheres?”. Com algum senso de humor, um psicólogo vai ser obcecado por responder à famosa pergunta formulada por Sigmund Freud, criador da psicanálise. Para concluir a pesquisa para sua tese de doutorado, André, personagem de Michel Melamed, se arrisca nos mais diversos territórios como salões de beleza, clubes e sex shops, colhendo depoimentos das mais diferentes mulheres.
Achei bastante interessante o tema, pois, como diz um compadre meu, “mulher nasce com crise existencial”.  Penso que essa é uma questão que habita tanto a cabeça dos homens (que precisam saber lidar com elas) como das próprias mulheres (que absorvem tantos papéis em uma só pessoa).
Muitas vezes, acho que as mulheres não sabem o que querem e, se sabem, é apenas por um curto espaço de tempo, já que boa parte das mulheres são seres em constante transformação e dotadas de uma coragem que lhes é peculiar. Não é à toa que a Bíblia tem histórias de muitas e fantásticas mulheres, como também inventaram o ditado “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher”. É notório e indiscutível que as mulheres são grandes responsáveis pelo movimento e construção do mundo, da nossa sociedade, dos valores e princípios nela existentes, pois são dotadas de uma força tamanha que é desconexo chama-las de sexo frágil.
Acho até que o personagem André nem precisaria ir a tantos lugares para tentar entender o que quer uma mulher (ou várias), porque na síntese, elas acabam agindo sempre da mesma maneira, num mesmo “funcionamento do ser”. Bastaria que ele ficasse por muito tempo com uma mesma mulher e observando cada um dos papéis que ela desempenha pela vida: namorada, noiva, esposa, mãe, avó... aluna, professora, mestre, doutora, profissional..., menina, mulher, amiga... e tantas outras coisas que uma mulher é capaz de ser, num só corpo, numa só alma.
Nos tempos atuais o feminismo anda tão em alta que o que mais podemos ver são mulheres assumindo papéis que deveriam ser atribuídos apenas aos homens. Será que é isso mesmo que elas querem?
Acho que mulheres têm um querer meio dúbio: querem ser magras ao mesmo tempo que querem ter “no que pegar”, querem ser independentes ao mesmo tempo que querem ser cuidadas por alguém, querem ser mais velhas quando novas e mais novas quando velhas, querem ser naturais mesmo sem abrir mão da maquiagem ou do silicone, querem que seu homem a ame ao mesmo tempo que querem ser desejadas por todos os outros homens, dizem querer sexo sem compromisso mas querem que lhe façam a côrte, querem filhos mas não querem defeitos pelo corpo, querem um homem bom e bonito mas não quer que ele seja notado por outras mulheres, querem o céu mesmo sendo viventes da Terra.
Esse seriado vai ser, no mínimo, bastante divertido. Quero poder assistir todos para, quem sabe, eu me encontre em algumas daquelas mulheres e defina o que eu quero, na verdade. 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lugar errado


Você, alguma vez, já acordou com a sensação de estar no lugar errado? Não no outro quarto da casa ou em uma cama desconhecida, mas numa vida que não te pertence? Hoje acordei assim e minha cabeça está até meio zonza.
Lembrei-me do filme Avatar, onde você tem a oportunidade de viver duas vidas ao mesmo tempo, as duas se alternando entre o “dormir” da outra. Será que na nossa vida também não é assim? Seria bom demais se aquela tese que diz que nossa alma caminha enquanto nosso corpo descansa fosse verdade. Eu, particularmente, prefiro acreditar que seja assim, pois pelos sonhos encontro muitas respostas para a minha vida real. E através deles também vivo coisas num espaço e tempo ilimitados que me são inesquecíveis.
E o que é a minha vida real senão uma seqüência infindável de sonhos? Sonhos sonhados, sonhos realizados e tantos outros que ainda sonho, na certeza que se tornarão realidade um dia. Outros sonhos mais parecem devaneios, desejos relâmpagos que sei que qualquer hora vão se apagar.
Mas, voltando à minha sensação, olho à minha volta e tudo está tão organizado, tão no lugar, tão certinho, tão bonito, tão esperado, tão óbvio, tão calmo, tão previsível... que é como se essa vida não me pertencesse. A minha alma não se conecta a essa realidade, sendo eu uma pessoa tão intensa, desassossegada, imprevisível, cheia de vontades repentinas e decisões impensadas.
Amo meus filhos, tenho uma família bacana (que é a aspiração de tantos e que também foi minha um dia, por isso a construí), moro na cidade que mais adoro e tenho exatamente a vida que sonhei pra mim, com alguns créditos que o Divino me deu de presente por algum motivo que ainda não sei qual é.
Eu não bebi álcool, não fumei (aliás, nunca fumei porque detesto o cheiro), não cheirei nenhuma droga (argh!), mas minha cabeça continua rodando. Também não comi nada de estragado ou estou há horas sem comer pra poder ser algum tipo de indisposição do aparelho digestivo. Tenho a certeza que é a minha confusão mental, minha inadequação de espaço que está me gerando esse desconforto “flutuante”.
Então, me pergunto: “O que você gostaria de estar fazendo agora, Taiza Renata”? E a resposta me vem, sem muito pestanejar: “Numa praia desconhecida, com novas pessoas, gente interessante de todos os lugares do planeta, ouvindo uma música Lounge, comendo frutos do mar e dando boas gargalhadas. E sozinha, sem nenhum familiar, amigo ou conhecido próximo por perto”.
É como se estivesse na ânsia por conhecer coisas novas, descobrir novos lugares, interagir com pessoas diferentes, de idéias inovadoras, de culturas interessantes... uma terra fértil para o brotar de uma nova pessoa, talvez.
Acho que me cansei da mesmice. Por mais que os dias tragam pitadas novas, um assunto aqui, outro acolá, pra colorir e animar o meu dia, nada é tão significativo que me faça focar em algo que realmente valha a pena.
Pode ser a necessidade do desassossego para, quem sabe, me conformar com a vida planejada que levo, que tem tanta informação que é quase impossível imaginar que esteja tão organizada.
Sinto como se me faltasse objetivo, como se o principal eu já tivesse alcançado, porém seu resultado me causa uma alergia estranha de mim mesma, uma coceira interna que diz: “Taiza, se joga na vida! Que paradão é esse, menina? Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!” Mas, levantar do alto e dar a volta por cima do que já é tão grandioso? Como se faz isso? Alguém pode me ajudar?
Acho que estou numa fase de me descobrir mais e perceber que sou muito mais do que me foi imposto ou rotulado durante a vida. Não que eu não goste da vida que eu tenho. Pelo contrário, amo demais e dou o maior valor a tudo isso. Sou grata à vida por tudo que ela me deu e de mãos beijadas. Ela sempre foi muito generosa comigo.
Porém, há algo fervilhando dentro de mim que me diz que há algo desconhecido tanto maior, que sou capaz de conquistar, sem ter de abrir mão do que já tenho, mas que promoverá grandes mudanças no cenário atual.
Essa sensação me desarmoniza, me deixa inquieta, confusa. E assim será até que eu encontre as respostas que tanto preciso, respostas essas que sinto estarem todas dentro de mim, como num livro de curiosidades que, por um motivo especial, não colocaram em ordem alfabética, dificultando achar a resposta.
Lugar errado. Ou seria dia errado? Talvez decisões erradas... não sei! O que sei é que, só de poder escrever isso tudo, deixar jorrar tudo isso de dentro de mim, minha cabeça começa também a se acalmar. É como se as idéias, de repente, começassem uma maratona desorganizada, onde nenhuma delas sabia onde chegar, mas que precisava apenas correr, e correr bastante. Com o texto, é como se, pelo menos, elas definissem uma reta na certeza que, lá longe, ao final, haverá uma bandeirinha de chegada balançando dando a entender que você é um vencedor.
E olhando para essa imagem (acima), eu sou a própria vaquinha. Tão bonita, tão aparentemente harmonizada com o ambiente à sua volta, ao lado de um amigo fiel que domina aquele lugar, dando pulos sincronizados num mar de tantas possibilidades, mas que, em seu íntimo, sabe que aquele não é o seu lugar e que há, ao fim do mar, terra que lhe dará o alimento mais apropriado, com seres que mais se assemelham a você e que, com sorte, você também poderá alimenta-los da maneira mais saudável possível.
Doideira...