domingo, 17 de outubro de 2010

Folha de Moisés


Era noite na cidade e os bares estavam lotados de pessoas se divertindo, casais namorando, famílias se servindo do que os restaurantes oferecem de melhor e se fartando. Comidas cheirosas, bom papo, boas companhias.

O céu se apresentava limpo, apenas uma estrela brilhava muito forte, perto da lua, que crescia e mais parecia um sorriso largo no céu nos desejando felicidade.

Mas faltava algo pra tornar aquela noite mais especial. Faltava alguém para que a noite fosse completa. Apesar das boas conversas e gargalhadas, faltava algo com essência, algo que pudesse me trazer o novo, uma sensação de alegria vazia, sem ter nem porquê. Era como se faltasse a aprendizagem, o sentido daquela noite.

Quando, de repente, surge ela. Pequena, magrinha, de pele bem morena que contrastava com seu vestidinho cor de rosa longo, bordado de flores vermelhas pelos cantos. Cabelinho sarará, bastante arrepiado, apesar da tentativa de prendê-lo para mostrar-se mais plausível.

Chegou com o seu sorriso branco, oferecendo pulseiras de hippie para vender entre as mesas. Até que chegou até a minha mesa. Enquanto me passava os preços das pulseiras, seus olhos se atraiam para o prato de porção de carne em cima da mesa.

Fiz de conta que não percebi e continuei perguntando sobre o seu trabalho e ela, entre olhares para mim e para a carne, me dizia preços, propagava o trabalho da mãe que a esperava do outro lado da avenida.

Até que ela não se conteve e perguntou humildemente: “Posso comer um pouquinho de carne?” Eu, mais que rapidamente, enchi uma pratada e a convidei para sentar entre nós. Enquanto ela comia com tanto furor aquela carne, seus lábios pareciam sorridentes de satisfação.

Comecei a perguntar pela vida dela, onde morava, quantos anos tinha, se estudava... essas coisas pra puxar assunto e não deixá-la parecer uma estranha entre nós.

Perguntei o seu nome. “Folha”, respondeu toda sorridente. Achei aquilo tão puro e tão lindo que me encantei completamente. Coisas de Taiza Renata. Então, eu disse que ela era especial porque tinha um nome muito especial e jeito de quem tinha sido enviada por Deus, para fazer alguma diferença na alma das pessoas por onde passava.

Ela se empolgava com minhas palavras e ia contando que tinha um irmão que se chamava Sol e enchia a boca pra dizer que seu nome era Folha de Moisés, assim como eu quando me apresento como Taiza Renata. É como se esse nome desse mais potencial à pessoa.

A mãe, que observava do outro lado e assistia a filha “em casa” entre nós, veio logo. Mostrou seus trabalhos, contou sobre sua vida difícil com as crianças e me contou que Folha tinha apenas seis anos de idade. Perguntei se ela estudava, ela disse que sim, disse o nome da escola, quando Folha a interrompeu dizendo orgulhosamente que já sabia escrever o nome dela. Que era a única coisa que ela sabia, mas pelo jeitinho que disse, sabe com muita propriedade.

Falei pra ela cuidar direito daquela menina e que eu não sabia porque estava dizendo isso pra ela. Daí, lembrei dos evangélicos e soltei: “Deus está mandando te dizer”. Acho que dá mais força. E falei sério mesmo, porque aquela menina me fez ganhar a noite, pois me deixou encantada com ela, trouxe reflexões e muito aprendizado, completando o sentido que faltava para aquele momento.

Nessa noite, uma folha caiu sobre minha cabeça. Não de uma árvore, mas do céu, que é onde, dizem, habitam os anjos.

Um comentário:

  1. Não sei porque,mas fui tomado de um sentimento muito grande de compaixão com essa história e fiquei imaginando a angústia dessa mãe para obter com seu trabalho honesto o sustento destes dois filhos,às vezes estamos num bar e ficamos incomodados com a presença constante desses ambulantes,imagino o que existe de desconhecido em cada um deles ali à sua volta.....

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