terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bondade



“Ela pergunta a seu marido:
- Eu sou uma boa pessoa? Sem piadas. Sem retóricas.
Ele, com os braços envoltos em seu corpo, responde:
- Você é a melhor pessoa que eu conheço. Tudo o que você faz é pelos outros!
- E por que eu sou assim? – pergunta com ar de insatisfação.
- Isso, eu não faço idéia. Mas, com certeza, você tem uma satisfação doentia com isso.”

Comprei o filme “Um sonho possível” por acaso (se eu acreditasse no acaso). Ficou meses dentro do armário, esquecido. Nem tão esquecido assim. Passei a mão nele várias vezes de lá pra cá, mas sempre o guardava de volta. Nesse final de semana, resolvi assistir.

É um filme leve, mas que me fez chorar (como se isso fosse alguma novidade). Sandra Bullock, que ganhou o prêmio de melhor atriz no Globo de Ouro e no Oscar com esse papel, estava ainda mais fantástica. Foi exatamente a forma como ela agia que me chamou mais atenção nesse filme.

Ela é uma mulher de classe média alta, bonita, divertida, muito bem resolvida, hiperativa, desempenhando mil papéis ao mesmo tempo e com toda classe. Sempre muito bem arrumada, com um ar de respeito pela vida e pelas pessoas e, nem irritada, desce do salto.

O filme conta a história verídica do jogador de futebol americano Michael Oher. Um negro que foi tirado da mãe quando pequeno por ela ser dependente de álcool e drogas, mas que fugiu do orfanato do Estado e vivia pelas ruas. Até que essa família resolve acolhê-lo numa noite de frio e o leva pra casa.

É uma história meio maluca, completamente inadmissível para os tempos de hoje. Uma família americana branca oferecendo abrigo a um negro enorme, de onde não se sabe a origem, mesmo tendo um casal de filhos dentro de casa, uma mocinha e um menino por volta de seus 7 anos.

O filme mexeu muito comigo, em várias partes, porque eu tenho esse lado altruísta meio “irresponsável” de querer ajudar o outro, mesmo sem saber de onde vem, sem colocar na balança os perigos possíveis desse ato.

Por várias vezes me vi naquela mulher, a começar por quando eu tinha 10 anos de idade e fui visitar uma creche de deficientes com minha mãe e eu fui embora chorando muito porque fiz amizade com um menino negro e cego e queria que minha mãe o adotasse.

Esse texto acima retratou uma cena de começo de namoro com meu marido. Nem namorávamos ainda, estávamos nos conhecendo. Conversa vai, conversa vem, ele me perguntou o que eu queria fazer na vida. Respondi: “Tudo que eu quero é poder ajudar os outros”. Então me vi na pele da mulher do filme porque a minha vida só tem sentido se estou fazendo algo de bom por outrem, se eu estiver envolvida com algum bem, mesmo que isso me incomode por pensar pouco em mim.

“Todos têm que ter um objetivo na vida” – é o que dizem. Fico pensando se esse não seria o meu objetivo maior, porque eu não penso em ter aquela casa, naquele lugar, aquele carro maravilhoso, aquela pós-graduação, nada do que é material me satisfaz. Claro que gosto do que é bom e precisamos mesmo nos superar. Mas é como se isso fosse muito pouco pra tornar a vida plena de felicidade, porque a cada conquista, precisa-se arrumar outro objetivo.

Esse meu objetivo nunca acaba. As pessoas sabem dessa minha conduta e acabo me envolvendo com elas de forma intensa. Seja lá em que campo da vida for, mesmo que eu não esteja apta a resolver definitivamente o problema, dou o meu ombro amigo, me faço presente, mas é como se sentisse ser pouco, ineficiente. Eu sinto a dor do outro e quero que ele esteja bem a qualquer preço. Se pudesse, tiraria dele e colocaria em mim. Ainda assim, doendo em mim, estaria feliz.

Insano? Doentio? Pode ser sim. A maioria das pessoas não consegue entender este tipo de postura diante da vida. Ouvi diversas vezes que sou como beira de rio, pois tudo que é coisa ruim se encosta em mim e ali permanece. Não deixa de ser verdade! Eu tenho mesmo um ímã que atrai pessoas problemáticas. Porém é impossível descrever o prazer que se tem em conquistar, nem que seja ajudar a pessoa a encontrar, o bem.

Em outra parte do filme, o personagem diz que a mãe o ensinou assim: “Quando uma coisa ruim acontecer, feche os olhos. Quando eu contar até três, você abre os olhos... o passado acabou, o mundo é um bom lugar e vai dar tudo certo”. Essa parte também retrata um pouco do meu ser, essa minha Síndrome de Poliana, de procurar ver o mundo sempre cor-de-rosa, com uma diferença: eu fecho os olhos para poder ver a linda cor, mas enfrento de cabeça erguida com a situação, de mãos dadas com o problema, até que ele se resolva, encarando a vida de frente e sem fugas.

Há um momento do filme em que ela coloca em voga a sua bondade, questionando se o bem que ela fez para o menino tinha uma causa própria por trás. Isso a faz se sentir mal. É quando ela de escolhas para o menino, coisas que falo diariamente aos meus filhos: “Faça o que quiser fazer. A decisão é sua. É a sua vida!” Então, ela se sente novamente em paz.

A única coisa que sei é que oferecendo o bem, é imprescindível que você se sinta melhor do que a própria pessoa que recebeu sua bondade e que não há maior prazer do que ver um sorriso aberto estampado na face do outro. Portanto, sempre que possível, experimente ser um tanto altruísta e usar seus dons em prol de alguém. Faça a sua escolha.

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