sexta-feira, 30 de abril de 2010

Não estás deprimido...


Não estás deprimido, estás distraído.
Distraído em relação à vida que te preenche, distraído em relação à vida que te rodeia, golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.
Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando existem cinco mil e seiscentos milhões no mundo. Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me. O que é fundamental para viver.
Não faças o que fez teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria sem igual aos noventa, para citar apenas dois casos conhecidos.

Não estás deprimido, estás distraído.
Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não és dono de coisa alguma. Além disso, a vida não te tira coisas: te liberta de coisas, alivia-te para que possas voar mais alto, para que alcances a plenitude.
Do útero ao túmulo, vivemos numa escola; por isso, o que chamas de problemas são apenas lições. Não perdeste coisa alguma: aquele que morre apenas está adiantado em relação a nós, porque todos vamos na mesma direção.
E não esqueças, que o melhor dele, o amor, continua vivo em teu coração.
Não existe a morte, apenas a mudança.
E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, o Arcanjo Miguel, Whitman, São Agostinho, Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.
Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será, e chegará de forma natural.
Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor.
Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida. A mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.
Deus te tornou responsável por um ser humano, que és tu. Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo.
E só então poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros.
Lembra-te: "Amarás ao próximo como a ti mesmo".
Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que vês, é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição. Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever; porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.
Um único homem que não possuiu talento ou valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.
Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo.
Podemos experimentar a neve no inverno e as flores na primavera, o chocolate de Perusa, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e as poesias de Whitman; a música de Mahler, Mozart, Chopin, Beethoven; as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.
E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas: se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas).
Se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido... portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.

Não estás deprimido, estás desocupado.
Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança que será sócia do teu filho. Ajuda os velhos e os jovens te ajudarão quando for tua vez.
Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para aqueles que virão.
Dá sem medida, e receberás sem medida.
Ama até que te tornes o ser amado; mais ainda converte-te no próprio Amor.
E não te deixes enganar por alguns homicidas e suicidas.
O bem é maioria, mas não se percebe porque é silencioso.
Uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida.

(Texto de Fecundo Cabral)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Estou doente...


Sempre desconfiei que havia algo errado comigo. Sempre me senti uma estranha no ninho, como se eu vivesse num mundo completamente diferente e à parte das pessoas do meu convívio familiar, social e profissional.

Então, há alguns meses atrás, conversando com um amigo, ele me disse que eu tenho esse jeitinho, tipo Pollyanna, aquele clássico que li ainda criança, de uma menina que vivia num mundo de fantasia e sonhos. Só por isso se sentia feliz.

Desde que ele me disse isso, fiquei muito reflexiva e pensei: “Talvez seja hora de parar de ser menina e amadurecer. Virar gente de verdade”. Até que resolvi comprar novamente esse livro e ler.

Lendo, descobri que estou doente. Ou melhor, nasci doente. Sofro da Síndrome de Pollyanna. Só espero que não tenha cura e quero poder morrer disso, se Deus quiser. (Risos)

A vida é feita de escolhas, sempre repito. Eu decidi que nasci pra ser feliz. E, assim como a doce Pollyanna, escolhi brincar com o “jogo do contente”, onde procuramos em todos os fatos, pessoas e situações o lado bom das coisas, um motivo pra ficar contente, percebendo que, por pior que as coisas estejam, sempre poderiam ser piores.

Sem contar com o lado altruísta de estar sempre pronta a ajudar as pessoas, que seja com um ombro amigo ou oferecendo gentileza ou apenas um simples sorriso. O foco é fazer algo bom pelo outro, sempre tentando dar o melhor de si, sem permitir que o outro te faça de boba. Confesso que, essa última parte, ainda estou trabalhando bastante pra ver se consigo superar, afinal, a vida é essa busca de sermos melhores a cada dia.

Então, lendo o livro, me reconhecendo nele e rindo das peraltices da menina órfã, me veio na mente: “Que coisa mais piegas essa vida cor de rosa! Isso não existe. Taiza, cresce!”

Em seguida, pego-me questionando: “Porque não cor de rosa? A vida tem a cor que damos a ela! A vida é o que a gente acredita. Sinceramente, acho que cor de rosa é uma boa cor, que me ajuda a aflorar minha feminilidade, já que me considero uma espécie de homem”.

Se tem algo que me cansa é ver alguém reclamando... da vida, das coisas, das pessoas. Julgando, então... tanto pior! As pessoas precisam aprender a se respeitarem mutuamente, acima de tudo, e entender que cada um tem o tamanho da cruz que merece. “Deus dá o frio conforme o cobertor”, já diz o ditado popular. Portanto, não adianta querer que façam como você faria, simplesmente porque você é outro ser, outra essência, outra história.

Então, por que não ser feliz? Por que sofrer com julgamentos alheios se, dentro de você, você sente que esse é o melhor caminho. Muitas vezes, você tem dúvidas, mas se fizer com amor e por amor, já terá valido a pena, mesmo que as pessoas te aconselhem de outra forma.

Costumo dizer que conselho é muito bom para quem dá, que tem a oportunidade de desabafar, tentar ajudar o próximo, interagir com a vida do outro... mas “se fosse bom, não era dado de graça”. Porque cada um tem seu caminho, ou vários caminhos e só intuitivamente vai saber pelo qual seguir.

Comecei a entender isso quando, há muitos anos atrás, conheci um casal que me escandalizou, na época. É que eu estava com aqueles padrões de comportamentos morais e sociais, tão comuns na época da minha vovozinha, muito arraigados dentro de mim. Ele era engenheiro agrônomo formado em excelente faculdade e filho de um homem muito rico e de reconhecido status social. Casou-se (ou melhor, se juntou) com uma menina que tinha condições sociais e financeiras bem inferiores à dele, além do que ela já tinha sido hippie, emo, punk (entre outros desses grupos “malucos”).

Ela era atriz e eles se conheceram numa boate de São Paulo, enquanto fazia a função de recepcionista naquela noite. Em uma de minhas conversas com ela, contou-me que um de seus trabalhos como atriz foi ficar uma noite toda nua, numa camisinha gigante em plena Avenida Paulista. Outro feito foi conhecer a América de carro, dormindo dentro dele, passando dias sem tomar banho ou trocar a calcinha até chegar na cidade desejada. Quando sentia que a roupa estava muito suja, vestia-a pelo avesso. Também contava de boca cheia que já tinha feito de tudo um pouco naquela vida, até que encontrou o meu conhecido e resolveram “juntar os trapos”.

Pra mim era loucura que um casal assim, com tantas diferenças, pudesse dar certo. Ficava imaginando como a família “imperial” teria recebido tudo isso, com que satisfação. Para a minha surpresa, eles receberam a moça de braços abertos e colocou o filho pra cuidar das fazendas, aproveitando o curso que tinha feito. Sem dúvidas, foi um meio inteligente de retirá-lo do meio social tão julgador. Ela ia para o curral com uma calça jeans rasgada na bunda e ali ajudava, como um peão, em meio a tantos deles, sem ambos se importarem com o tal traje.

Coisas da vida! Ou seria loucuras de amor? Não importa o nome que você dê. O importante é que deu certo. Eles escolheram ser felizes, apesar de tudo e de todos. Imagino eu que com tantos apontamentos alheios dizendo que isso não teria o menor futuro.

Por outro lado, me veio à mente a história do Divã, o filme de Martha Medeiros com a Lilian Cabral. O filme começa com ela falando da sua vida para o psicólogo, que era casada, família estruturada, filhos, professora, pintora... Ele era o homem perfeito, aquela pessoa que ela sonhou a vida toda em construir uma vida, tão normal, tão companheiro, tão gentil... E ela ia descrevendo tudo ao psicólogo até que se deu conta que ela era tão feliz que nem sabia o porquê de estar ali.

Somos assim. Pelo menos, algumas pessoas são. Parece que quando está tudo bem, existe um desconforto enorme dentro da gente que nos faz buscar coisas novas, nem que seja fazer faxina no que está tudo tão bonitinho, mas o movimento é vital. E sempre fazemos para que possamos nos sentir felizes, o que tem uma diferença grande entre sentirmos confortáveis.

Acredito sinceramente que tudo que nos acontece é como uma preparação para que o melhor aconteça em nossas vidas. Erro é uma coisa muito relativa. Eu mesma já errei tantas vezes seguindo conselhos alheios! E quantas foram as vezes que acertei, pensando que estava errando? Isso acontece sempre, todos os dias. Basta olhar em volta!

Seja lá o que a vida nos reserve, seja lá como estiver sua vida agora, é importante esquecer o medo e ressaltar a ação. A ação de ser feliz. E antes de agir, não se esqueça de sonhar. É o primeiro passo para que possa realizar. Quando for se mover, lembre-se sempre de dar o melhor de si e ser verdadeiro com você mesmo e, se possível, use o “jogo do contente”, porque o sorriso é mágico e contagiante.

Ainda estou doente. Melhor dizendo: sou doente. Porque essa minha síndrome que me acompanha por toda a vida é uma energia que capaz de mover as constelações estratosféricas do universo e não é apenas um estado, é o ser que eu escolhi para bem viver, portanto, é uma constância em minha vida.

Pensem o que quiser! Podem me pedir até pra aterrissar, como acabou de me dizer minha mãe pelo telefone, lembrando que esse é o planeta Terra. Quando respondi: “O meu mundo não é esse. É a lua que, por acaso (se é que ele existe), está cheia, linda, iluminada no céu. E eu quero mais é visitar Saturno.”

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A teoria da manga


O velho caipira, com cara de amigo, que encontrei num Banco, estava esperando para ser atendido. Ele ia abrir uma conta. Começo de um novo ano... Novas perspectivas...E como não podia deixar de ser, também começou ali um daqueles papos de fila de banco: contas, décimo terceiro que desapareceu, problemas do Brasil, tsunami... Será que vai chover?
Mas em determinado momento a conversa tomou um rumo:
- Qual é então o maior problema do Brasil para ser resolvido?
E aí o representante rural, nosso querido "Mazaropi da modernidade" falou com um tom sério demais para aquele dia: 
- O Maior Problema do Brasil é que sobra muita manga!
Tentei entender a teoria...Fez-se um silêncio e ele continuou: 
- O senhor já viu como sobra manga hoje debaixo das árvores? Já percebeu como se desperdiça manga?
- Sim... Creio que todos já percebemos isto... Onde tem pé de manga, tem sobrado manga...
E aí ele continuou: 
- Num país onde mendigo passa fome ao lado de um pé de manga... Isso é um absurdo! Num país que sobra manga tem pouca criança. Se tiver pouca criança as casas são vazias... Ou as crianças que tem já foram educadas para acreditar que só "ice cream" e jujuba são sobremesas gostosas.
Boa é criança que come manga e deixa escorrer o caldo na roupa... É sinal que a mãe vai lavar, vai dar bronca, vai se preocupar com o filho.
Se for filho tem pai... Se tiver pai e manga de sobremesa é por que a família é pobre...
Se for pobre, o pai tem que ser trabalhador...
Se for trabalhador tem que ser honesto...
Se for honesto, sabe conversar...
Se souber conversar, os filhos vão compreender que refeição feliz tem manga e que é comida de criança pobre e que brinca e sobe em árvore...
Se subir em árvore, é por que tem passarinho que canta e espaço para a árvore crescer e para fazer sombra...
Se tiver sombra tem um banco de madeira para o pai chegar do trabalho e descansar...
Quem descansa no banco, depois do trabalho, embaixo da árvore, na, sombra, comendo manga é por que toca viola... E com certeza tá com o pé na grama...
Quem pisa no chão e toca música tem casa feliz...
Quem é feliz e canta com o violeiro, sabe orar...
Quem sabe orar sabe amar...
Quem ama, se dedica...
Quem se dedica, ama, ora, canta e come manga, tem coração simples...
Quem tem coração assim, louva a Deus.
Quem louva a Deus, não tem medo... Nada faltará porque tem fé...
Se tiver fé em Deus, vê na manga a providência divina... Come a manga, faz doce, faz suco e não deixa a manga sobrar...
Se não sobra manga, tá todo mundo ocupado, de barriga cheia e feliz.
Quem tá feliz.... não reclama da vida em fila do banco... "
Daí fez-se um silêncio...

(Texto de Rubem Alves)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sorvete


Uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido. Uma só.
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').
Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.
Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...
Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'. Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: 'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'...
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.
Um dia a gente cria juízo.
Um dia.
Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente.
OK? Não necessariamente nessa ordem.
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago...

"Você nasce sem pedir e morre sem querer. Aproveite o intervalo."

(Texto de Danuza Leão)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Se um homem quer...


Se um homem quer você, nada pode mantê-lo longe;
Se ele não te quer, nada pode fazê-lo ficar.
Pare de dar desculpas (de arranjar justificativas) para um homem e seu comportamento.
Permita que sua intuição (ou espírito) te proteja das mágoas.
Pare de tentar se modificar para uma relação que não tem que acontecer.
Mais devagar é melhor. Nunca dedique sua vida a um homem antes que você encontre um que realmente te faz feliz.
Se uma relação terminar porque o homem não te tratou como você merecia, "foda-se, mande pro inferno, esquece!”, vocês não podem “ser amigos”. Um amigo não destrataria outro amigo.
Não conserte.
Se você sente que ele está te enrolando, provavelmente é porque ele está mesmo. Não continue (a relação) porque você acha que “ele vai melhorar”.
Você vai se chatear daqui um ano por continuar a relação quando as coisas ainda não estiverem melhores.
A única pessoa que você pode controlar em uma relação é você mesma.
Evite homens que têm um monte de filhos, e de um monte de mulheres diferentes. Ele não casou com elas quando elas ficaram grávidas, então, porque ele te trataria diferente?
Sempre tenha seu próprio círculo de amizade, separadamente do dele.
Coloque limites no modo como um homem te trata. Se algo te irritar, faça um escândalo.
Nunca deixe um homem saber de tudo. Mais tarde ele usará isso contra você.
Você não pode mudar o comportamento de um homem. A mudança vem de dentro.
Nunca o deixe sentir que ele é mais importante que você… mesmo se ele tiver um maior grau de escolaridade ou um emprego melhor.
Não o torne um semi-deus. Ele é um homem, nada além ou aquém disso.
Nunca deixe um homem definir quem você é.
Nunca pegue o homem de alguém emprestado.
Se ele traiu alguém com você, ele te trairá.
Um homem vai te tratar do jeito que você permita que ele te trate. Todos os homens NÃO são cachorros.
Você não deve ser a única a fazer tudo…compromisso é uma via de mão dupla.
Você precisa de tempo para se cuidar entre as relações. Não há nada precioso quanto viajar. Veja as suas questões antes de um novo relacionamento.
Você nunca deve olhar para alguém sentindo que a pessoa irá te completar.
Uma relação consiste de dois indivíduos completos, procure alguém que irá te complementar… não suplementar.
Namorar é bacana. Mesmo se ele não for o esperado Sr. Correto.
Faça-o sentir falta de você algumas vezes… quando um homem sempre sabe que você está lá, e que você está sempre disponível para ele, ele se acha…
Nunca se mude para a casa da mãe dele. Nunca seja cúmplice (ou co-assine qualquer documento) de um homem.
Não se comprometa completamente com um homem que não te dá tudo o que você precisa. Mantenha-o em seu radar, mas conheça outros…
Compartilhe isso com outras mulheres e homens (de modo que eles saibam). Você fará alguém sorrir, outros repensarem sobre as escolhas, e outras mulheres se prepararem.
O medo de ficar sozinha faz que várias mulheres permaneçam em relações que são abusivas e lesivas.
Você deve saber que você é a melhor coisa que pode acontecer para alguém e se um homem te destrata, é ele que vai perder uma coisa boa.
Se ele ficou atraído por você à primeira vista, saiba que ele não foi o único.
Todos eles estão te olhando, então você tem várias opções.
Faça a escolha certa.

(Texto de Oprah Winfrey)

domingo, 25 de abril de 2010

Nasceu Sophia...


Nasceu Sophia, dia 23/04/2010, às 2 horas da tarde, 3.600 g, 49 cm... uma boneca, de bochechas cor de rosa e semblante tranquilo, filha de minha amiga de longa data, Shumbi e do meu novo amigo Gustavo.

Entre brincadeiras envoltas pela alegria de seu nascimento, ontem, ainda na maternidade, me veio uma inspiração leve e rápida, resolvi brincar um pouco com as palavras e rimas e acabei por registrar em seu caderno de assinaturas.

A pedido da mãe coruja e por vontade de sua tia torta (porém não tão torta, pois você tem meu sangue), Sophia, aqui vai seu poeminha pro meu blog.

O céu hoje está maravilhoso!
Um azul tão lindo, tão vistoso...
Parece que existe algo novo,
Ou foi você que veio pra completar esse povo.

Agora entendi o que aconteceu!!!
Foi a bonequinha Sophia que nasceu
E todos os nossos corações aqueceu,
Mas o que mais alegrou foi o meu

Porque essa menina tem sangue bom
É o sangue da tia Taiza, veio com dom
Pra gostar da vida e usar muito batom
Dando um colorido e um perfeito tom.

Sophia, seja bem vinda à vida!
Você terá uma história florida...
E pode contar comigo como amiga
Porque já estou aqui, só na torcida.

Deus te abençoe e te guarde!
Viva a vida cheia de vontade,
Porém sem fazer muito alarde
E não puxe essa sua tia covarde.

Agora vamos deixar de besteira...
A verdade é que vou te amar a vida inteira.
Se precisar, vou ser sua conselheira
E deixar seus pais com a pulga atrás da orelha.


kkkkk...
Seja feliz!
Te amo...
Tia Taiza Renata

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Semente


Pela manhã estava ouvindo Chico Buarque e não sei citar a música que eu ouvia enquanto meus pensamentos vagavam pelo tempo da minha vida... a que foi, a que é e a que ainda virá.

Fiquei pensando em muitas coisas: na minha infância, adolescência, fase adulta... nas realizações e decepções, as quais, sem perceber me trouxeram outras realizações. É aquela velha frase: “Às vezes, precisamos perder pra poder ganhar lá na frente”. Pensei no que eu acreditava e que hoje não tem mais o menor valor, nas crenças que me foram repassadas (vindas de outras gerações) e que por anos a fio defendi e vivi. Atestei para mim mesma como é boa essa fase dos 35 anos, onde as peças do quebra cabeças se encaixam. A gente só não sabe o que fazer com esse quebra cabeça montado, mas...

Na verdade, eu sei sim. Acho que agora é hora de procurar coisas novas, talvez um novo jogo. Não. O quebra cabeças é um jogo muito interessante e agora eu já sei que as peças nos vem no tempo certo e da forma mais exata. Então, acho que agora é hora de buscar novas peças, para no futuro montá-las novamente e continuar sempre brincando.

Fiquei também imaginando o porquê das coisas e porque não conseguimos ver as respostas que sempre estão a um palmo do nariz, mas que, por medo, por fuga ou simplesmente por não estarmos preparados, não enxergamos. A vida é sábia!

Veio-me então a imagem e a história da semente. Todos nós somos sementes e a historinha de todos é sempre a mesma, olhando sem prestar muita atenção: nascemos de algum ser vivo, germinamos, nascemos, crescemos, multiplicamos e morremos. Do pó ao pó, já diz a Bíblia.

Olhando mais atentamente, podemos perceber que apesar das histórias serem sempre as mesmas, na verdade são completamente diferentes. Uma semente pode vir uma flor, ou um fruto, uma planta, um ser humano... e sendo flor, pode ser rosa, tulipa, crisântemo, lírio... e sendo fruto pode ser manga, melancia, maracujá e ainda, cenoura, chuchu, pimenta... e sendo planta, pode ser trepadeira, samambaia ou grama esmeralda... e sendo humano, pode ser bonito, feio, alto, baixo, gordo, magro, pode ser gente de verdade ou um protótipo de gente que não deu muito certo.

E diante de tudo isso, somos sementes e nascemos no melhor tempo, seja ele verão, inverno, outono ou primavera... ou 1900, 1950, 1974, 2000... ou tempo de seca ou de chuva. Germinamos também sempre no lugar certo, seja em terra fértil ou no deserto, seja no Brasil ou na Alemanha, seja na sua família ou na minha.

Sendo sementes, precisamos querer crescer, multiplicar e muitas vezes precisamos de ajudas externas, como a luz do sol, o banho da chuva, uma conversa amiga, um conselho de família. Vamos captando toda essa energia de acordo com o que precisamos para dar um bom fruto. Acredito que esse é o grande X da questão. Mas daí, pensei: será que existe esse “X da questão”? Aos olhos de quem e pra que? E daí percebo que a questão não tem só um X, mas um alfabeto inteiro.

Tive uma sensação gostosa e um pensamento certeiro: sou uma semente. Apesar de já ter feito tanta coisa na vida, estou na fase de nascer (ou renascer). Talvez eu já tenha feito uma fase: já nasci, cresci, dei frutos e morri. Estou renascendo, para uma nova fase, onde me encontro aspirando pelo novo, por descobertas do que ainda não conheço, por experimentar o que achei que era feio e que, na verdade, entendi que o belo e o feio dependem dos olhos de quem vê. Sou minha outra semente de mim mesma.

Qual semente eu seria? “Uma cenoura” - pensei. Coelhinhos que são tão fofos as adoram. Mas não quero ser cenoura. Apesar de ser bonita, gostosa, ter uma cor quente e ser quase doce, não quero ser cenoura. Ela cresce pra baixo, cresce dentro da terra e pra ter sua finalidade, alguém tem que arrancá-la. Cenoura não.

Achei que eu tenho mais a ver com a rosa. Porque não quero crescer dentro da terra, quero crescer rumo ao céu. É ele o meu limite. E, apesar de bonita e cheirosa, pode ser de várias cores e tamanhos. Cuidado, porque tenho espinhos cortantes. Eles não servem para te machucar, mas pra me defender. É preciso me pegar com muito jeitinho, mesmo que seja para só cheirar. Preciso do sol e da chuva, mas preciso de cuidados de outrem, pois posso ressecar e morrer. Preciso também de algumas boas podas, para fortificar os novos frutos que florescerei. Dou diversos tipos de botões: uns maiores, outros menores, uns eu nem deixo abrir, outros me abro tanto, que perco minhas pétalas.

E como é bom sentir as borboletas, as abelhas e os beija-flores se achegando a mim. É quando realmente e definitivamente, atesto ao que vim: pra me doar, me deixar sugar para, mais uma vez, me encher de seiva e me deixar tocar, profundo, na alma.


Semente – Armandinho

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

De onde veio?
De onde apareceu?
Por que que o meu destino é
É tão parecido com o seu?
Eu sou a terra, você minha semente.
Na chuva a gente se entende, 
É na chuva que a gente se entende.

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

Semente, eu sei,
Tem gente que ainda acredita
E aposta na força da vida
E busca um novo amanhecer.
Lá vem o sol, e agora diga que sim
Semente, eu sou sua terra,
Semente, pode entrar em mim.

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

Semente, semente, semente, semente, semente...
Se não mente fale a verdade,
De que árvore você nasceu?

Se conseguir
Aquilo que você quer
E conseguir manter
A nobreza de ser quem tu é,
Tenha certeza
Que vai nascer uma planta
Que a flor vai ser de esperança
De amor pro que der e vier..

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Amor - Carlos Drummond de Andrade


Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Demais - Verônica Sabino


Foi um vento que passou
Que te trouxe e te levou
Deixando no corpo a marca do amor
Que ficou no ar
Ilusão no ar

A chuva que esse vento trás
Faz com que eu me lembre mais
De todos os sonhos que a gente sonhou
Planejou demais
Demais

Bem que eu podia tentar te encontrar
Mas um vento forte que me afastou
Te levou, te escondeu longe demais

A chuva que esse vento trás
Faz com que eu me lembre mais
De todos os sonhos que a gente sonhou
Planejou demais
Demais

E cada vento que soprar
Pode te fazer voltar
Encher o vazio que ficou no ar
Me marcou demais
Me marcou demais

Acordei com essa música na cabeça, não sei porquê, afinal não a ouço há tanto tempo e ela é de 1900 e bolinhas. Mas, a noite me trouxe essa letra. Talvez queira me dizer alguma coisa. Então, vamos à interpretação...

O vento, amigo do tempo. Sempre trazendo um refresco à nossa alma!
 
Se for uma brisa, nos traz a lembrança de alguém, ou quem sabe um grito de quem te chama porque te precisa. E é sábio, porque só você ouve. Só você sabe de onde vem e responde com outro apelo, ou um beijo ou simplesmente um pensamento, que chega ao lugar certo, no tempo exato, pra pessoa ideal para aquele momento.

Se for um vento forte, daquele que traz tempestade, pode nos assustar, mas de uma forma ou de outra, varre as impurezas e lava a nossa alma. Leva o que dói pra um lugar tão distante, o qual nem precisamos saber. A nós só resta a lembrança dos melhores momentos. Essas sim, seguramos com toda a força, contra o vento e guardamos pra sempre no coração.

Esse vento traz e leva pessoas da nossa vida, com a velocidade necessária para nos trazer o aprendizado pedido na inconsciência de cada um de nós. Deixa em nós a marca do amor, um amor que parece avassalador, mas que não passa de uma doce ilusão.

Traz também a chuva, que escurece o céu, entristece o peito, que nos trás lembranças de momentos tristes que passamos ou felizes, os quais nos entristecem por não podermos mais tê-los no presente. Esses ficam gravados pra sempre no nosso íntimo. E quando olhamos para o céu, entendemos que até ele chora essa ausência e se torna seu mais aliado parceiro da melancolia.

Os pensamentos insistem em nos importunar, em nos rondar, tentar mais uma vez viver o que não foi vivido, ter o algo mais que não pôde ser, concretizar os planos tão carinhosamente feitos, porém nunca concretizados. Isso dói demais.

De repente, como um suspiro da esperança, você sente uma vontade enorme de tentar reviver o passado, você tenta reencontrar aquela pessoa que você guarda dentro de você com tanto carinho, um amor platônico... mas vem o vento, o tal amigo do tempo, e te afasta e leva pra longe, muito longe a ponto de esconder a pessoa de você mesmo.

O vento sabe que o tempo é o melhor remédio, nos trazendo o “vento-alívio” em doses homeopáticas que nos consola o ser, pouco a pouco, dia a dia. E ele vai soprando, lento, leve, quase que imperceptível em nossa vida e quando abrimos os olhos, já foi. Foi apenas uma ilusão, um sonho que já valeu a pena por simplesmente nos fazer sonhar.

Mas a vida dá tantas voltas, né? Quem sabe, um dia, por algum motivo ou vontade, o vento sopre um pouco mais e pode te trazer de novo esse certo alguém? Então, você terá a certeza que a vida é sábia e que ela sabe o momento exato das coisas, dos encontros, dos reencontros que pode preencher o vazio ainda existente no coração. Alguém que ficou no ar e que marcou demais.

Posso errar?


Há pouco tempo fui obrigada a lavar meus cabelos com o xampu “errado”. Foi num hotel, onde cheguei pouco antes de fazer uma palestra e, depois de ver que tinha deixado meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia nem shopping num raio de 10 quilômetros. A única opção era usar o dois-em-um (xampu com efeito condicionador) do kit do hotel. Opção? Maneira de dizer. Meus cabelos, superoleosos, grudam só de ouvir a palavra “condicionador”. Mas fui em frente. Apliquei o produto cautelosamente, enxaguei, fiz a escova de praxe e... surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes — tudo aquilo que meus nove vidros de xampu “certo” que deixei em casa costumam prometer para nem sempre cumprir. Foi aí que me dei conta do quanto a gente se esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo, usar a roupa certa, dizer a coisa certa — e a pergunta que não quer calar é: certa pra quem? Ou: certa por quê?

O homem certo, por exemplo: existe ficção maior do que essa? Minha amiga se casou com um exemplar da espécie depois de namorá-lo sete anos. Levou um mês para descobrir que estava com o marido errado. Ele foi “certo” até colocar a aliança. O que faz surgir outra pergunta: certo até quando? Porque o certo de hoje pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de “nada a ver”, vão ficando e, quando você se assusta, está casada — e feliz — com um deles. 

E as roupas? Quantos sábados você já passou num shopping procurando o vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo e, na hora de sair para a festa, você se olha no espelho e tem a sensação de que está tudo errado? As vendedoras juraram que era a escolha perfeita, mas talvez você se sentisse melhor com uma dose menor de perfeição. Eu mesma já fui para várias festas me sentindo fantasiada. Estava com a roupa “certa”, mas o que eu queria mesmo era ter ficado mais parecida comigo mesma, nem que fosse para “errar”.

Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar, apesar dos problemas de saúde, e ela me respondeu: “Eu sei que está errado, mas a gente tem que fazer alguma coisa errada na vida, senão fica tudo muito sem graça. O que eu queria mesmo era trair meu marido, mas isso eu não tenho coragem. Então eu fumo”. Sem entrar no mérito da questão — da traição ou do cigarro —, concordo que viver é, eventualmente, poder escorregar ou sair do tom. O mundo está cheio de regras, que vão desde nosso guarda-roupa, passando por cosméticos e dietas, até o que vamos dizer na entrevista de emprego, o vinho que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual que nos torna parceiros interessantes, o restaurante que está na moda, o celular que dá status, a idade que devemos aparentar. Obedecer, ou acertar, sempre é fazer um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado.

O filósofo Mario Sergio Cortella conta que muitas pessoas se surpreendem quando constatam que ele não sabe dirigir e tem sempre alguém que pergunta: “Como assim?! Você não dirige?!”. Com toda a calma, ele responde: “Não, eu não dirijo. Também não boto ovo, não fabrico rádios — tem um punhado de coisas que eu não faço”. Não temos que fazer tudo que esperam que a gente faça nem acertar sempre no que fazemos. Como diz Sofia, agente de viagens que adora questionar regras: “Não sou obrigada a gostar de comida japonesa, nem a ter manequim 38 e, muito menos, a achar normal uma vida sem carboidratos”. O certo ou o “certo” pode até ser bom. Mas às vezes merecemos aposentar régua e compasso.

(Texto de Leila Ferreira)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Torneira de letrinhas


Há muito tempo estou sem escrever meus textos loucos, lúdicos, recheados de questionamentos, que tudo tem a ver comigo e que, de repente, se encontram encubados em mim. Aqueles textos longos, cheio de fantasias, idéias, sonhos, realidades... aqueles textos que me despem a alma.

“Pode ser falta de tempo!” – explico para mim mesma, mesmo sabendo que o tempo é a gente que faz. Tempo para se fazer o que quer e o que gosta é apenas uma questão de organização. Pronto! É isso. Estou numa fase de desorganização interna total.

Nada se encontra no lugar: os pensamentos me vem como um vulcão em ebulição que jorra suas larvas tóxicas queimando tudo que vê pelo caminho, sem dó nem piedade. E me queima também. A vida se encontra fora de lugar porque percebo, de repente, não estou mais no controle da minha própria vida. Minhas fantasias e sonhos já não cabem mais em lugar algum, pois me permito decepar. Viver sem meus devaneios loucos é morrer um pouco a cada dia. A impossibilidade de materializar esses pensamentos então... é a materialização da própria morte. Portanto, estou desorganizada e totalmente fora do lugar.

Então, acordo com a sensação que essa desordem só aumenta à medida que abro mão de mim mesma, inclusive dos meus textos que também precisam jorrar para que toda essa coisa aqui dentro se organize.

Hoje resolvi abrir a minha torneira de letrinhas e deixar sair com toda força a água, o sentimento, as letras... tudo que se encontra em desordem e que, como mágica, no papel se organiza. Fica mais fácil entender, ler, sendo possível até surpreender.

Meu “sábio guru” me disse uma vez que a água representa sentimento, num certo desenho que ele pediu pra eu fazer. Fiquei encabulada ao perceber o excesso de sentimento que existe dentro de mim, constatados no enorme número de banheiros, numa banheira enorme e uma piscina em forma de ‘T’. Claro, né? Era a MINHA piscina.

Aí, fiquei pensando em colocar um pouco disso pra fora e me veio à mente a imagem de uma torneira, daquelas bem simples, de banheiro. Porém, ao invés de água, saiam letrinhas. Ainda bem que, embora fora de ordem, saiam letrinhas coloridas. Se fossem pretas ou cinzas seria o meu fim. Risos...

O engraçado é que, mesmo agora, quando já consigo escrever de novo, minha água não vai para o papel. Apenas letrinhas. Essas que você está lendo agora. A torneira está aberta, paro, penso, na tentativa de abri-la mais e... nada de água, muito menos vontade de expor meus sentimentos. Só letrinhas!

Só sei que não é por desorganização e sim por necessidade de silêncio. Meus textos, minhas letrinhas quando se ordenam me despem completamente. Por tanto escrever, de tanto falar, já estou com a bunda de fora.

Talvez seja hora de silenciar, de escutar as respostas que o Universo possa me trazer e aceitá-las, tentando sempre sentir mais meu coração, que hoje está triste e solitário, até por não conseguir compartilhar toda “água” existente nele.

Tenho tantas pessoas que posso recorrer: amigos, família, meu sábio guru, meu anônimo predileto... pessoas que me ajudam a organizar os livros da minha biblioteca mental que agora está muito bagunçada. Há livros jogados e espalhados por todo chão.

Minha água está ficando turva, como se houvesse um aquário que há muito tempo ninguém cuida. Quem passa por ele e olha, vê tudo muito lindo, a começar por estar num lugar perfeito, no melhor estilo “décor”, além de suas algas coloridas e seus peixinhos nadando e soltando borbulhas calmamente.

O que ninguém vê é que, quando não se cuida, o aquário parece continuar bonito e em perfeita harmonia, mas em seus cantinhos, em suas plantas, em suas pedras, vai juntando um lodo grudento, que quanto mais tempo se deixa aderir, mais difícil de limpar. E os peixinhos já não têm mais o oxigênio necessário para viverem saudáveis.

Sinto-me como se a vida tivesse pegado esse aquário, colocado uma tampa para lacrar e... balançou, balançou com toda força... pra cima, pra baixo, de um lado para o outro... e colocou de qualquer jeito em qualquer lugar.

E eu, meio sem querer, passei por ali e algo me chamou a atenção. Num ímpeto, olhei para o aquário, o qual está feio, bagunçado, sujo. As pedras formaram uma montanha de um lado só do aquário, as algas estão flutuando soltas e os peixes buscam um suspiro de vida, buscando ar na superfície da água, que agora se encontra cheia de ciscos e sujeiras, tornando-a embaçada.

Já que olhei pra ele, agora não tem mais jeito. Impossível simplesmente passar e não arrumar tudo isso. Preciso jogar fora toda essa água poluída, escovar pedrinha por pedrinha para tirar todo o lodo, limpar os vidros e os cantinhos, trocar as algas e, enquanto isso, colocar os peixinhos num recipiente com água limpa e em segurança, até que possam voltar a seus devidos lugares.

O que eu quero mesmo é poder faxinar esse aquário da melhor forma possível, sem muito alarde. Quero deixá-lo lindo de novo, mas em um novo lugar. Não quero colocá-lo na estante da sala em lugar privilegiado, onde todos que entrem na casa possam ver e fazer seus julgamentos. Acho que vou colocá-lo em qualquer outro lugar, pode ser até no meu quarto. Acho até que lá é um lugar melhor, pois vou olhar pra ele todos os dias, com mais cuidado.

E dentro vou colocar mais peixes, de outros tipos, pra mudar o cenário que se movimenta. Novos peixes farão companhia aos que lá já habitam. Mudarei também a cor das pedras, colocarei novos ornamentos e, a partir de agora, nunca mais quero deixar de olhar.