sexta-feira, 5 de março de 2010

Um dia por vez - 05/03/2010 - Cena do cotidiano


Não era nem sete da manhã ainda quando subia a rua da minha casa para levar meus filhos na escola. A rua já estava agitada, muitos carros na fila do semáforo e eu com a cabeça longe, observando tudo à minha volta. Pensando no que aquelas pessoas ao meu redor pensavam, o que iam fazer no dia, como seria a vida de cada um, quais problemas lhe afligiam e o que de bom os esperava.

Ao parar no sinaleiro uma cena me chamou muito a atenção. O porteiro de um prédio estava parado acompanhando com olhar e preocupação uma velhinha que acabara de sair dali. Mas não era uma velhinha qualquer, dessas "espigadinhas" que nós vemos a todo momento na rua, resolvendo suas vidas com altivez e energia. Essa era uma velhinha bem enrugadinha, cabelos brancos bem curtinhos, aquele vestido tão usado por senhoras nessa faixa de idade (80/90 anos) que mais se parece um roupão de botõezinhos todo estampado em tons de marron, um sapato baixo daqueles que não machucam o pé e dão sustentabilidade ao andar e uma bolsa preta amassada embaixo do braço. Até aí tudo bem.

Mas o que tanto me chamou a atenção foi que ela era uma senhorinha frágil, encurvadinha e andava numa velocidade “quase ré”, observando todos os obstáculos do caminho para evitar qualquer queda ou contratempo. Cada passo que ela dava, no seu ritmo (que pra mim era de vitória), devia sair no máximo 10 cm do lugar, depois de analisar se havia alguma pedrinha ou um desnível de calçada. Eu olhava e tinha certeza que ela cair a qualquer momento.

Meu primeiro pensamento foi: “Meu Deus! Coitadinha! Ela não podia estar sozinha, pois pode cair, se machucar. É tão frágil! Será que ela mora sozinha? Será que não tem ninguém? Como ela vai atravessar a avenida com essa velocidade? Não vai dar!!!” Tive até o ímpeto de parar o carro e oferecer uma carona ou, no mínimo, avisá-la que ela não tinha condições de sair sozinha naquelas condições da precariedade física que a velhice trás. Mas o sinal abriu e me contive, passei adiante.

Então, fiquei pensando como a gente tem todas as soluções para a vida dos outros, mas nunca para a nossa. Me coloquei no lugar dela naquele momento. Indaguei: “Eu quero ajuda ou quero me superar?” Olhando mais fundo, entendi que se ela precisasse de ajuda, já teria pedido, nem que fosse ao porteiro que ficou de longe vigiando-a.

Quantas vezes na vida encontramos pessoas pra nos desestimular, nos tirar o foco dos nossos sonhos, tentar mostrar a impossibilidade de se alcançar um objetivo? Muitas vezes são pessoas até próximas de nós, que nos conhecem, nos amam e nos aconselham com a maior boa vontade, em prol do nosso bem sempre. Como também há pessoas maldosas que se fazem de amigas para nos ver “queimando na fogueira”. E dá-lhe lenha!

Precisamos estar sempre atentos ao nosso coração e aos nossos sentimentos porque a grande verdade é que todo o conhecimento e as respostas que precisamos moram dentro de nós. Além do mais, vivemos num mundo de possibilidades, mas somos seres únicos com experiências que só nós vamos passar. O aprendizado é de cada um e, ainda assim, este tem seu tempo. A percepção de nós mesmos é fundamental nessa caminhada que chamamos de Vida.

Ter um objetivo é o que nos move, que nos faz seres proativos, que nos dá gás na veia para realizarmos coisas que nós nem imaginamos sermos capazes de realizar. A falta de objetivo nos deixa à mercê dos outros, de nós mesmos, da vida. A vida existe pra fazermos parte dela inteiramente, não apenas para ficar assistindo da platéia.

Aquela senhorinha, a qual tenho certeza que ficarei dias ainda “digerindo”, me mostrou isso num instante de cinco segundos (ou um pouco mais) e tenho certeza que naquela vida de tantos cabelos brancos alcançados com o tempo, ainda me fará repensar em outros pontos como, por exemplo, a coragem de arriscar, a disseminação do medo que nos bloqueia, a certeza de seu potencial, a luta contra suas limitações, entre tantos outros.

Espero poder ainda vê-la muitas vezes, mesmo que seja por um egoísmo meu de saber que no dia de hoje deu tudo certo, que ela conseguiu chegar onde queria e que voltou em segurança pra casa para, então, quem sabe, traçar outros e outros objetivos, mesmo que esses sejam do tipo: ir na farmácia ou na padaria sem se machucar, mesmo que não tenham avenidas para atravessar, mesmo que as pessoas se preocupem ao redor. O importante é ela saber (e agora eu também) que no fim tudo dá certo, basta a gente se arriscar e acreditar.

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