segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Força estranha - Caetano Veloso



Eu vi um menino correndo...
Eu vi o tempo
Brincando ao redor do caminho daquele menino...
Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei.

Eu vi a mulher preparando
Outra pessoa.
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga...
A vida é amiga da arte –
É a parte que o sol me ensinou –
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.

Por isso uma força me leva a cantar...
Por isso essa força estranha no ar...
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha!

Eu vi muitos cabelos brancos
Na fronte do artista
O tempo não pára e, no entanto, ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo
Do fogo das coisas que são...
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.

Eu vi muitos homens brigando,
Ouvi seus gritos...
Estive no fundo de cada vontade encoberta.
E a coisa mais certa de todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol...
E o sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada...
É o sol!

Por isso uma força me leva a cantar...
Por isso essa força estranha no ar...
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha!

Há muito tempo venho ouvindo essa música e sentindo a vida passar entre sua letra e melodia, aumentando minha vontade de escrever sobre ela. Ao mesmo tempo que ela traz a leveza dos acontecimentos mais simples da vida, traz também uma esperança de viver com uma intensidade tal, sentida no entoar da voz em seu refrão. Tamanha!

O que me faz afinar com essa música é a forma como Caetano Veloso figura a vida e a forma como ele traça um cenário. É exatamente como eu vivo e como tantas vezes repito: uma pessoa sentada na arquibancada da vida, tirando das cenas do cotidiano, geralmente as mais simples e freqüentes, o aprendizado necessário para enriquecer minha bagabem, o sal necessário para o meu bem viver.

Ele vê um menino correndo. Uma imagem tão singela, porém tão rica. Pode-se ver nesse menino todo o tempo de sua vida, aquele que já viveu desde o momento que foi gerado, com a carga da sua história familiar, juntamente com os anseios de um futuro almejado melhor. E, brincando, o tempo faz as suas peripécias na vida daquela criatura, trazendo muitas surpresas e formando um ser humano, como um escultor que trabalha em sua grande obra de arte.

Então, ele coloca os pés no riacho, seja por um momento em que pôde descansar um pouco da própria vida que é sempre tão corrida, seja para se refrescar... não importa. Foi o momento que ele encontrou para olhar à sua volta e sentir na vida de outrem uma magia encantadora que a vida teima em carregar consigo, fazendo muitas de nossas horas meramente mágicas. Quando ele se dá conta que, na verdade, esse “parar para olhar e refletir”, esse riacho, faz parte dele, de sua maneira de levar e ver a vida tal como ela é.

Mas ele ainda está ali, parado, e observa a estrada. Esta que é sempre iluminada pelo sol e que temos a ânsia de passar por ela. Estrada esta que é um trilhar de tantas esperanças, uma promessa de dias melhores, pois o astro rei a ilumina, portanto, já é um presságio de momentos calorosos para nossos corações.

Como num passe de mágica, outra cena lhe chama a atenção: a de uma mulher grávida, que gera dentro de si um outro ser. Mais uma vez, o tempo lhe vêm à mente como um furacão devastador, bagunçando dentro da cabeça todas as hipóteses de uma vida, que começa de uma maneira tão “milagrosa”.

Pode, com aquela barriga, atestar que o a vida é amiga da arte, pois, por mais que se repitam os gestos em tantas outras vidas, as pessoas e suas histórias são sempre únicas. Assim como o pintor usa sempre mesmas cores, muitas vezes no mesmo tamanho de tela, compradas sempre no mesmo lugar. Porém cada pintura, cada quadro traz um tema diferente, uma mistura de cores sem igual, a qual não se pode repetir, pois o grande segredo está no sentimento do momento.

Assim também como as inúmeras músicas que falam de amor, onde o tema é sempre o mesmo, mas as formas de se compor, de abordar o amor, de colocar o ritmo, a melodia, a voz do artista, a entonação de cada voz, fazem a total diferença e acabam marcando diversos corações e momentos de uma forma sempre muito especial.

A vida é mesmo muito amiga da arte! Quem ensina é o sol, aquela luz forte, incontida, que aquece e clareia a visão e a alma, e que não necessariamente brilha no céu, pois muitas vezes ele irradia de dentro de nós.

Uma força estranha, um conhecimento que não sabemos ao certo de onde vem, apenas temos uma leve desconfiança, que fica amortecida dentro de seres que pouco almejam, pouco buscam. Ou podem ser escancaradas no cantar dos corajosos, que não têm medo de gritar para o mundo o seu sentimento, a sua percepção, fazendo com que pessoas à sua volta possam se atentar para a luminosidade que a vida é.

O compositor volta então a observar e se depara, desta vez, com os cabelos brancos do artista. Ele percebe que, por mais que sua imagem tenha sido transformada pelo passar dos anos, ele não envelheceu, pois mantem a sua alma jovem, a sua arte viva, pulsando eternamente em suas veias. E quando a morte chegar, porque sempre chega, ele se imortaliza em seus versos, seu grande legado.

Caetano, então, entende que para o artista não existe velhice, nem mesmo a morte, pois sua arte é imortal e ultrapassa todas as barreiras do tempo, desafiando até mesmo a certeza da vida. Ele sabe que tudo que vivemos, as estradas que escolhemos caminhar, os infortúnios que muitas vezes passamos, não conseguem tirar o brilho do sol, tanto o que brilha no céu, quanto o que brilha em nós. Pelo contrário, quem conhece o jogo sabe que esses acontecimentos dão o azul mais bonito a resplandecer no céu de nossas vidas.

A última cena é de homens brigando, de uma forma tão grotesca que é possível ouvir os seus gritos. Mas é fácil entender que aquela forma agressiva mostra claramente a fragilidade que faz morada em seus seres. A briga, os gritos são disfarces de seus medos mais profundos e são usados para defenderem o que, para esses homens, é tão frágil. Por isso atacam.

E assim se faz a vida! Cheia de cenas, encantos, devaneios... sempre carregados de uma sabedoria ímpar que só pode ser sentida e percebida por quem está atento a ela, por quem gosta de viver e o faz da maneira mais intensa que puder.

Não sei cantar, mas mesmo assim me arrisco. A força estranha, que pra mim nada tem de estranha, me acompanha sempre, pois é minha companheira e cúmplice quando me atrevo a fazer arte, a minha arte, a arte de escrever.

Um comentário:

  1. ...QUE A FORÇA ESTRANHA DA ESPERANÇA SEMPRE POSSA TRANSFORMAR NOSSOS SONHOS EM REALIDADE... BEIJOS DE GIULIANA

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