quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sentar-se à janela do avião



Era criança quado pela primeira vez, entrei em um avião.
Eu queria sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.
Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia!
Cresci, me formei e comecei a trabalhar. No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante. As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.
No início pedia sempre poltrona ao lado da janela e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.
O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido.
As poltronas do corredor agora eram exigência. Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.
Por um desses maravilhosos "acasos" do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível.
O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.
Sem pensar, concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque. Embarquei no avião e sentei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual eu já não me preocupava em olhar.
E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga.
Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.
Era um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se estivesse acabado de nascer.
Naquele instante em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem que desprezava aquela vista.
Pensei comigo mesmo: será que em relação a outras coisas da minha vida, eu também não havia deixado de me sentar na janela, como por exemplo, olhar pela  janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?
Creio que aos poucos e, mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida.
A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens - que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.
Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá onde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.
Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e "ganhar tempo", pare um pouco e reflita aonde você quer chegar.
A aeronave da nossa existência voa célebre e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Não sabemos quanto tempo nos resta.
Por esta razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.
Afinal, "a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos".

Texto de Alexandre Garcia

Um comentário:

  1. É incrível como a maioria de nós não se apercebe do mundo em volta durante a vida.Vivemos num mundo ilusório cheio de pensamentos e sentimentos que nos impedem de saborear o momento presente,o aqui e agora.Realmente a felicidade não está na chegada esperando por nós e sim no trajeto,até porque não sabemos onde e quando termina a viagem.

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