domingo, 27 de dezembro de 2009

Saudade - Mário Palmério


Hoje, conversando com minha afilhada mais velha sobre assuntos polêmicos da vida, citei uma pessoa muita querida que tive o grande prazer de conhecer há cerca de15 anos atrás e que me ensinou coisas muito importantes e que, na época, muito me chocaram, pois era um homem de 75 anos de idade com uma visão de vida invejável, uma bagagem que lhe trouxe muita sabedoria. Eu, com meus 22 anos de idade, ficava ali encantada, ouvindo aquela espécie de mestre falar-me com um carinho todo especial.

Seu nome era Mário Palmério e era uma celebridade, mas nossas constantes e diárias conversas durante 28 dias nos aproximaram muito e nos tornamos amigos. O nosso maior vínculo foi a música, pois eu tocava piano, assim como ele, e ele ficava cantando, me ensinando a tirar as canções dele... passamos muitas horas divertidas juntos.

Para quem nunca ouviu falar desse meu inusitado "amigo", vou falar um pouco dele. Mário Palmério era mineiro, tinha uma aparência parecida com Vinícius de Morais e, também como Vinícius, era poeta, compositor, escritor, foi membro da Academia Brasileira de Letras (ocupando a vaga de Guimarães Rosa), educador, fundador de escolas e faculdades no Triângulo Mineiro, político, Embaixador do Brasil no Paraguai e também Reitor da Uniube. Seu livro mais conhecido é Grandes Sertões: Veredas.

Deixou sua vida política e foi viver no Rio Amazonas com uma índia num barco que ele construiu e por lá ficou 10 anos de sua vida. Segundo me contou, em uma de nossas conversas, apesar de já ter sido casado e com filhos, essa foi a época mais feliz de sua vida, porque descobriu a intensidade do amor, aquela que nos anestesia, e a importância da atração física entre duas pessoas.

Então, com o coração cheio de saudade, hoje o texto é sobre ele, ou melhor, sobre a música dele. Acredito que o Universo nos dá sinais ou que Deus conversa comigo de diversas maneiras. E, depois de tê-lo citado mais cedo, ao chegar no restaurante para almoçar, estava tocando essa música que é tão linda e que tanto me marcou. Seu nome é Saudade. É uma música pequena, singela, mas que traduz um sentimento que tanto nos acompanha pela vida. A versão original é em espanhol, mas estou colocando a tradução em português para que ela possa ser entendida ou reconhecida aqui.

"Se queres compreender o que é saudade
Terás que, antes que tudo, conhecer.
Sentir o que é querer, o que é ternura...
E ter, por bem, um grande amor. Viver!

Então, compreenderás o que é saudade...
Depois de ter vivido um grande amor.
Saudade é solidão, melancolia...
É nostalgia... É recordar... Sofrer!"

Ninguém pode falar de saudade, se não a sentir na pele e dentro do coração. Esse sentimento nos acompanha em vários momentos de nossa vida. Sempre sentimos saudade, em intensidades diferentes, seja de uma pessoa, uma época, um fato, um lugar... mas ela sempre se faz presente.

É imprescindível passar pela vida sem conhecê-la porque através dela, junto com ela, entendemos o que é querer verdadeiramente, saber o real significado da ternura e, se podemos optar, viver um grande amor. Mas vivê-lo na forma de Vinícius, sendo “eterno enquanto dure”. Entendendo que, na vida, tudo é transitório, portanto, é importante viver o momento e fazer com que ele dure para sempre dentro de você. Poder reviver tudo em cada lembrança, em cada sentimento de saudade.

Quando tiveres a oportunidade de viver esse amor, de comungar dessa dádiva, você, impreterivelmente, conhecerá a forma mais pura da saudade, aquela que nos acompanha, mas nos deixa numa solidão profunda de alma. A solidão que nos faz chorar ou apenas suspirar, que nos faz relembrar momentos de um passado feliz, que nos faz doer o coração. Mas sempre com a sensação feliz de ter valido a pena, de ser vivido profundamente.

E nessa hora, de tantas recordações, pode ser que seu semblante se alegre e você comece a sorrir, pois sentir saudade é, acima de tudo, trazer aquele momento eternizado de volta para sua vida, na certeza que, por mais que tenha havido algum sofrimento, mesmo que seja o da separação, valeu a pena viver, estar, sentir e, claro, muito amar.

Um comentário:

  1. Taiza,
    Belo relato.
    Deve ter sido mesmo interessante ter convivido com o genial Mário Palmério.
    Apenas uma correção no texto acima: O Livro "Grande Sertões Veredas" é de autoria do não menos festejado Guimarães Rosa.
    Mário Palmério escreveu "Vila dos Confins" e "Chapadão do Bugre", além, é claro, da belíssima guarânia "Saudade", uma das melhores canções de sua autoria.
    Ele merece mesmo todas as nossas homenagens.
    Viva o imortal Mário Palmério !!!

    Afonso Barreiros (Curitiba-PR)

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