quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Metade - Oswaldo Montenegro



E que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio,
Que a morte de tudo que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu canto
Seja linda, ainda que entristeça
E que a mulher que eu amo
Seja pra sempre amada, mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
E a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor, apenas respeitadas,
Como a única coisa que resta a um homem
Inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
Mas a outra metade é o que eu falo.

Que essa minha vontade de ir-me embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade é o que calo.

Que o medo da solidão se afaste,
Que convive comigo mesmo,
Se torne, ao menos, suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim
É a lembrança do que fui
E a outra metade... eu não sei!

Que seja preciso mais que uma simples alegria
Para me aquietar o espírito
E que teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é a briga,
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
Mesmo que ela não saiba,
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é Amor
E a outra metade... também!!!

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