sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sei lá - Vinícius de Moraes




“Tem dias que eu fico pensando na vida
E, sinceramente, não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender?
A gente mal nasce, começa a morrer;
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação.

Sei lá, sei lá...
A vida é uma grande ilusão!
Sei lá, sei lá...
Eu só sei que ela está com a razão.

Ninguém nunca sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é um descuido do não

Sei lá, sei lá...
Eu só sei que é preciso paixão!
Sei lá, sei lá...
A vida tem sempre razão.

Sei lá...
Sei não...”

Desde que começou a novela Viver a Vida, de Manoel Carlos, fico todas as noites pensando o quanto essa música pequena e singela é tão profunda e nos leva a pensar na vida. Eu, apaixonada por Música Popular Brasileira, viajo logo por sua letra e melodia.

Quanta sensibilidade da equipe para colocá-la tão encaixada, tão certa, fazendo o par perfeito com o nome da novela. Não foi surpresa quando descobri essa semana que ele tem uma equipe de 8 pessoas, todas mulheres, e se encontram semanalmente num restaurante do Leblon para conversarem sobre a novela e ali trocarem suas figurinhas. Tinha que ser coisa de mulher!!! Sinal de que ele sabe o que faz e como faz. Feeling e competência!

Aliás, que trilha sonora! Que fotografia! Que atores! Costumo dizer que ele não faz novela, e sim pinta quadros que conseguimos ver na telinha. Daqueles que a gente vê enorme e imponente na galeria e passamos horas ali tentando entender cada cor e cada movimento do pincel do grande artista. Essas telas que nos fazem chorar, rir, refletir... nos emocionam de fato. E as novelas do famoso Maneco são assim, estão sempre inundadas de histórias da vida real, ora felizes, ora doloridas, porém sempre belas, e pra ficarem ainda melhores, regadas às músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, escolhidas a dedo.

Mas, voltando à música, imagino Vinícius e Tom sentados no barzinho de sempre, embalados a alguns bons goles de uísque e acompanhados de um pedacinho de papel, caneta e violão, olhando a rua, as pessoas, o mar... filosofando sobre a vida e trasnformando-a em marcantes canções. Muitas vezes sentados no Bar Vilariño, no centro do Rio de Janeiro com muita gente em volta apreciando, admirados, e eles...? Nem aí pra ninguém! É como diz uma das músicas de Tom Jobim que diz: “Um cantinho, um violão, este amor e uma canção pra fazer feliz a quem se ama. Muita calma pra pensar e ter tempo pra sonhar...”

Entre tantas noites de boemia, nas rodas de grandes artistas e grandes músicos, em lugares simples, nasceu essa música Sei lá. E não sabemos mesmo! Somos, ora figurantes, ora expectadores, mas estamos sempre observando o rio da vida, a forma como as coisas são e como acontecem. Ficamos pensando em todos os “porquês” e nunca conseguimos achar as respostas que tanto queremos.

Acreditamos tanto nos nascimentos de pessoas, de amores, de amigos, de projetos... colocamos ali tanta dedicação, carinho e, muitas vezes, morremos na praia, pois imaginamos que era real, que daria algum futuro, que seria eterno. De tanto observar, o poeta escreveu “que seja eterno enquanto dure”. E, sem mais nem menos, se acaba, nos separamos, nos desligamos, mudamos o rumo e sentimos a morte em nós, muitas vezes acompanhada de uma dor estancada no peito.

Sofremos, choramos, quase nunca deciframos a situação, mas seguimos em frente entendendo que tudo não passou de ilusão, de uma criação nossa, baseada numa forte vontade do novo nascer e permanecer ali, para sempre. Com uma boa dose do melhor remédio - o tempo, continuamos sem entender, mas já conseguimos aceitar e até somos gratos por ter sido assim, pois o melhor acontece para todos. Nos damos conta que a vida é um ciclo, onde tudo se repete, e que todo fim é a promessa de um perfeito renascer.

Nos dedilhados de um gostoso e afinado violão, refletimos sobre os ataques que sofremos e fazemos, perceptivelmente ou não, fazendo de conta que nada aconteceu.

E a vida vai passando, o sol sai de cena para que a lua brilhe incansavelmente (afinal, cada um tem seu espaço e tempo para brilhar), e nós continuamos levando a vida (ou ela nos levando), fazendo o que podemos (muitas vezes, até o que não podemos), mas seguindo adiante.

Mas, uma coisa é certa: para viver a vida de verdade, com o gosto que a vida merece, é preciso paixão. Estar apaixonada por essa vida que nos emociona, nos faz crescer, nos surpreende a cada momento, nos encanta... e por tudo mais que a envolve, tudo que ela nos traz, com tanta sabedoria e complacência.

É... Sei lá. Eu também não sei! Quanto mais eu penso, mais concordo com nossos poetas... a vida tem mesmo suas razões!

2 comentários:

  1. A impermanência das coisas,é assim que a vida funciona,a pessoa ansiosa tem dificuldade em se adaptar a este ritmo normal,já o contemplador...simplesmente aguarda.

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  2. Só pode ser poema!!!!!
    Rsrsrsrsrsrsrsrsrs...

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